terça-feira, 6 de outubro de 2009

IDADES


Você nasce e isto é uma dádiva. Novinho em folha. Zero quilômetro, mas desconhece um detalhe que, provavelmente, irá ignorar ao longo da vida: Você veio ao mundo e aqui está por obra de, pelo menos, dois personagens que o acompanharão durante longo tempo.

Quando você deixa de engatinhar e adentra os 2 ou 5 anos e adquire certa autonomia, como andar e falar, já se julga investido em todos os direitos e, então, começam as exigências. Bate o pé, chora até conseguir o almejado. A vida é maravilhosa, mas mesmo assim você merece umas palmadas na sua parte mais carnuda.

Gradativamente, sempre protegido pelos anjos paternos, você avança e chega aos 14 anos, cada vez mais senhor de si, mais exigente, mais intolerante, mais aborrecido e aborrecedor, enfim, ampla e profundamente chato.

E aí chega aquele que você então encara como o maior dia da sua vida! Você completa 18 anos! Pode falar grosso em virtude da emancipação recém adquirida. Pode entrar e beber em qualquer lugar. Pode fazer praticamente tudo.Está preparado ou se preparando para ingressar em cursos superiores. Tem sonhos, projetos, procura realiza-los e apresenta aos pais a conta dos arroubos e fantasias.

Então caminha pela rota dos 20 e chega aos 30 anos, fase em que se considera o dono de todos os espaços, das mulheres (ou dos homens, em caso inverso), enfim, do mundo. Está no auge do entusiasmo; o seu herói é você mesmo. Todos devem aplaudi-lo. Você sabe tudo e se julga tudo. Não está nem aí para a idade. O mundo está dividido em duas categorias: os jovens poderosos e os idosos obsoletos. Não cogita em tempo algum que talvez um dia deixe de ser jovem e que se torne obsoleto.

Aí chega aos 50 com pulos de alegria; não são todos que aqui chegam; entretanto, começa sentir as diferenças e indiferenças. Já não agrada a todos, principalmente os ou as que tem entre 18 e 28 anos; nota pequenas, mas marcantes diferenças – para pior – no rosto. E daí para frente vai procurar retroceder, não no tempo, mas na idade. Procurará escondê-la, mas está na cara que chegou onde não pretendia chegar tão logo.

Do 50 para os 60 é um pulo rápido. Esta é a fase da busca e da fuga; por causa das dores e dos sintomas, busca os profissionais da saúde e da estética, e por indicação destes procura fugir das dores, dos sintomas e da aparência incômodos; gasta parte do tempo se dedicando a exames clínicos para encontrar o que não deseja; e outra parte, garimpando em cremes e loções, a fonte do rejuvenescimento. Você julgava que tal idade nunca iria chegar, porém, por um milagre, chegou e se antes o motivo para viver era a alegria e talvez a felicidade, agora a razão para continuar ancorado na vida são os filhos e netos.

Parabéns, chegou nos 70. Já de algum tempo tem sentido que os anos parecem os do cão: cada ano você envelhece 7. Nesta fase tudo pesa – a idade, a solidão, a mensalidade do plano de saúde. Até a contagem do tempo muda; em vez de, ao final do dia, dizer um dia a mais, diz um dia a menos. Tudo encolhe, já começando pela estatura e finalizando no valor da aposentadoria. Aí você começa dedilhar a memória na poesia Meus 8 anos: “Ai que saudades da aurora de minha vida”...

Finalmente chega os 80 e você pergunta de si para si: existe vida após os 80? Aliás esse é o limite de velocidade em muitas ruas e estradas. Tudo está ficando cada vez mais distante – os filhos que já estão ficando preocupados com a idade e com os cabelos brancos; os netos que estão crescidos e já “têm vida própria”; os amigos que já não podem sair de casa ou que saíram de forma definitiva. É hora de descartar-se das tristezas, das mágoas, da incompreensão, de indiferenças, dos afetos não correspondidos, mas é também o momento de depositar em especial relicário, as gratidões, os sorrisos, beijos, afetos, carinho, amores e tudo o mais que somou ou multiplicou ao longo do tempo e que se tornaram durante a trajetória em momentos de incontroláveis alegrias.

Quando o próprio calendário bater nos 85 ou 90 anos, você poderá dizer: Sou um vencedor, posso não ter chegado sozinho mas aqui estou! Daqui para frente tudo é lucro, os prejuízos ficaram para trás.

Agora só eu e Deus.

Autor: Gérson Gomide – Outubro 2009

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