domingo, 28 de março de 2010

PARÁBOLA DO TEMPO - Autor: Gérson Gomide


Um sábio convidou para junto de si três dos seus discípulos e lhes propôs dar-lhes oportunidade de enriquecimento da alma, disposição esta que requeria razoável intensificação de atividades. A proposta foi prontamente aceita por dois e sem muita firmeza pelo terceiro.
Expôs que, naquele mesmo momento, seria concedido a cada um, na justa medida de disponibilidade e capacidade pessoal, períodos de tempo em conformidade ao talento e potencial individual, os quais seriam usados pelos discípulos como melhor lhes conviesse.
Assim, ao primeiro discípulo tornou disponível, cinco períodos de tempo, pois era quem menos tempo tinha. Para o segundo, colocou a disposição três períodos de tempo, porque tinha um tempo razoável. Finalmente, ao terceiro dispôs apenas um período de tempo, eis que tempo era o que menos lhe faltava.
E de posse de seus atributos seguiram caminho com a graça do tempo e amparo do talento que lhes correspondiam. Assomavam-lhes à mente perguntas tais como: O que fazer? Como fazer? A quem procurar?
O primeiro deles recusou-se terminantemente escravizar-se ao tempo e dele fez-se beneficiário, exigindo todos os momentos a que tinha direito, concedendo-lhe, em contrapartida, especial dedicação. Trabalhou com denodo.
O segundo não se submeteu à vontade absoluta do tempo e fez dele um parceiro. Aparentemente fez menos, mas fez a totalidade do que poderia e deveria fazer. Trabalhou superando dificuldades.
Já, o terceiro, por dispor de muito tempo, sem saber usá-lo e já que fora agraciado com um só período de tempo resolveu deixá-lo sem uso, reservado para ocasião especial. Um dia se abeiraria da oportunidade de aplicar o tempo confiado. Postergou o trabalho.
Detalhe a que muitos se furtam – consciente ou inconscientemente – é que o tempo dispõe ao indivíduo aquisições pessoais e duradouras e se desperdiçado for em frágeis ou deteriorados devaneios e ilusões irá tornar-se amargo nos dias finais.
Transcorrido o período específico para a aquisição, soma ou multiplicação de bens duráveis, em conformidade com o tempo individualmente outorgado, o sábio reuniu os três discípulos e os questionou:
- O que foi feito do tempo que lhes confiei? – perguntou ao primeiro.
- Nunca tive tempo suficiente para tudo, sempre trabalhando e correndo atrás da sobrevivência e ainda assim recebi cinco períodos de tempo para tarefas, cujo aproveitamento me requereu bastante esforço. Direcionei para determinado rumo esses períodos e procurei torná-los preciosos, não só para minha sobrevivência mas igualmente preciosos àqueles que de uma forma ou de outra marcassem presença ou ausência em minha vi-da.
O primeiro período retalhei em duas metades: na primeira busquei Deus nas instituições religiosas e nesses locais obtive o Seu endereço que surpreso descobri localizar-se em meu âmago. Postei-me, então, respeitoso diante do mais belo de todos os altares que idealizei: o meu coração. A segunda metade foi dedicada àqueles que nunca ouviram ou quiseram ouvir falar d’Ele. Falei e repeti até a maioria entender que Deus não vence pelo cansaço ou pelo sofrimento; que o indivíduo sempre sai vencedor quando O descobre em seu íntimo.
Os quatro restantes períodos os dediquei ao serviço voluntário que não tem remuneração e tampouco reconhecimento duradouro; doei o que não mais me servia e também coisas que ainda me serviam, mas que eram mais úteis para quem as recebeu; reduzi a minha ambição e egoísmo; reparti grande parte de tempo e a moeda; fiz da palavra um louvor à vida; do silêncio fiz uma prece aos anjos; amei os filhos, honrei os pais; dignifiquei a família; respeitei regras e convenções; parei de reclamar de tudo e de todos; aprendi a sorrir, esperar, alimentar sonhos, realizar, sentir, ver, ouvir a expressiva voz do silêncio; aprendi o que significam esperança, sonhos, ilusões, devaneios e enlevos; redescobri o perdão; aprendi como amar e como deixar-me amar e, perdoe-me a presunção, também dei lições de perdão e de amor. Nos últimos instantes do último período, senti que o perdão que sempre busquei e o amor que sempre sonhei, disseram numa só voz, no mesmo sussurro: “viemos para ficar”.
- Gastei todo o tempo, nada tenho para devolver.
- Não quero devoluções, foi a resposta do sábio; apreciei demais suas palavras, gestos, atitudes. A gratidão, ainda que não manifestada por quem foi agraciado com a generosidade, é a sua recompensa. Receba em dobro os períodos gastos e desfrute da paz e felicidade que sinalizarão todas as trilhas em que colocar os pés; e por onde quer que caminhe, leve-as para o entretenimento das almas carentes. Sua é a bandeira em cujo dístico rebrilham estes dois conselhos: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.”
Aproximou-se o segundo e se manifestou:
- Senhor, em dose menor fiz aquilo ao qual meu companheiro se dedicou e, por ter recebido pouco menos não pude me projetar tanto quanto ele, porém isso não me incomoda porque aprendi a enxugar lágrimas próprias e alheias, bem como ensinei o pranto aos que necessitavam de lágrimas para desempenar o espírito, refrigerar a mente e banhar o coração; desenvolvi e ensinei o sorriso, o riso franco e contagiante; falei do e para o ser humano exemplificando o comportamento louvável; retratei a dignidade, honestidade, fraternidade; enfim, ilustrei todos os atributos que caracterizam o homem de bem. Gastei tudo não sobrou um segundo sequer. Estou feliz!
- Bem aventuradas os misericordiosos. Você fez do seu tempo o tempo da paz, da concórdia e entendimento. Supriu os necessitados com os recursos disponíveis; não recebeu aplausos, elogios ou menção honrosa, mas construiu um Tabernáculo e entronizou Deus para que os desvalidos e trôpegos pudessem encontrá-Lo. O reino do céu ainda não pertence à humanidade, mas uma célula desse reino você transportou para a Terra. Não importa o tamanho do seu gesto, importa o próprio gesto e ele é sempre do tamanho da sua generosidade.
A sua recompensa é a multiplicação por dois dos períodos que lhe foram concedidos. Entre na sua posse, uso e glória.
Por sua vez, o último se apresentou e nada falou.
O sábio pacientemente o questionou: - O que foi feito do tempo?
Encabulado o discípulo responde: - Nada senhor. A bem da verdade, reservei o tempo com que me agraciou para quando adquirisse a idade da razão e do discernimento. Aproveitei o tempo que antes possuía e que me sobrava e o tornei disponível em festas, homenagens, divertimentos, sorrisos descompromissados e convivências fugazes; enfim, dediquei-me em viver a vida. Se pretender de volta o que me deu, aqui o tem intacto.
-  Isensato! Sabe qual é a idade da razão? Não, não pode saber porque ela não tem idade; ela é a manifestação da consciência moralmente emancipada. O tempo que generosamente lhe ofereci, você o desperdiçou e não há como devolve-lo. Tempo perdido é irrecuperável, não retorna, não mais se usa.
  Mas, senhor, é uma imposição que deixemos o lazer e o divertimento de lado para nos dedicarmos aos de menos sorte? Isto não é exigência exagerada de quem não é responsável pela situação alheia?
- Nem tanto ao céu e nem tanto a terra. Nenhum dos outros dois renunciou ao convívio familiar, social, profissional ou ao divertimento sadio e responsável. O Eclesiastes (3) diz: Debaixo do céu há momento para tudo e tempo certo para cada coisa. Tempo para nascer, tempo para plantar, tempo para curar, tempo para construir, tempo para rir, tempo para bailar, tempo para recolher pedras, tempo para abraçar, tempo para procu-rar, tempo para guardar, tempo para costurar, tempo para calar, tempo para falar, tempo para amar, tempo para a paz.
- Toda vez que contrariamos o bom emprego do tempo ocasionamos reações que, na maioria das vezes, se manifesta como desilusões, dores, enfermidades e sofrimentos.
- No mesmo Eclesiastes (11.9-10) encontramos: “Jovem, alegre-se na sua juventude e seja feliz nos dias da mocidade. Siga os impulsos do seu coração e os desejos dos olhos. Contudo, saiba que Deus vai pedir contas a você de todas essas coisas. Expulse a melancolia do coração e afaste do seu corpo a dor, porque a juventude e os cabelos negros são fugazes.”
- Segue o seu caminho e se um dia resolver melhor dispor do tempo, não titubeie, faça-o porque para Deus nunca é tarde. Tampouco para você...

Gérson Gomide

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