ARIDEZ
Em tempos de antanho Santo
Agostinho rogou: “Que meu nome seja pronunciado como sempre foi, sem ênfase de
nenhum tipo. Sem nenhum traço de tristeza”.
Para que assim seja, mister se
faz que aquele que é lembrado tenha a desenvoltura do entendimento e da
gratidão, coisas raras nos dias atuais.
É verdade que o praticante do bem
que se apoia em sólida compreensão e desprendimento não pretende receber paga,
reposição ou torna pelo benefício prestado; entretanto, na maioria das atitudes
advindas da ingratidão fica demonstrado o desprezo e indiferença ao benfeitor,
colocando em evidência o próprio desequilíbrio espiritual.
Como colocar em prática a
rogativa de Santo Agostinho se as pessoas ingratas, embora nada delas se
espere, são lembradas, embora sem ênfase, com tristeza e até mesmo piedade. Por
outro lado, muitos dos que, por oportunismo ou qualquer outro motivo praticam o
bem, e nada recebendo em troca, exclamam: “Não esperava tal atitude, mas comigo
é uma vez só”. Lamentável, sem dúvida!
Quase todos os habitantes desde
mundo agressivo e renitente alimentam como
meta suprema, habitar “ad aeternum” ou “ad perpetuam”(*) os limites dum nirvana
próprio, obsidiando-se com o desejo incontido de adentrar permanentemente e em definitivo
ao estilo hedonista de liberdade, beleza, felicidade, prazer e fortuna, mas
raros são os que merecem habitar o Nirvana do contexto Budista que versa sobre
a felicidade profunda de quem desfruta a presença de Deus, tendo a Terra e os
seus habitantes como princípio para o exercício da bondade e a filosofia
beatífica como diretriz segura para tal finalidade.
É possível notar que uma parte da
humanidade está devidamente preparada para socorrer, mas nem todos que são
socorridos estão preparados para receber socorro, mas isto poderá ser mudado
quando o mundo das criaturas evoluir para o mundo do Criador.
A pessoa prestativa não escolhe
dia, lugar e hora. Ela simplesmente age em benefício de algo ou de alguém,
consolidando-se a atitude em duas categorias distintas: os bons e os bondosos.
Os bons são essenciais à sobrevivência dos desvalidos; os bondosos são
extremamente necessários como exemplos para que os bons se tornem afetuosos,
meigos, carinhosos.
Como desfecho, uma história
verídica: por algum tempo, numa época em que poucos destinavam alimento aos
desabrigados e até ocorrer o sumiço do beneficiado, um jovem nutria todos os
dias, fizesse sol, chuva ou frio um mendigo sem teto, levando-lhe o alimento da
manhã. Não recebia nenhum agradecimento por palavras porque o indigente era
mudo, mas lia na face e nos olhos as palavras: “Deus lhe pague por ter notado
que eu existo.”
E deixo para o final a seguinte
indagação: É possível esquecer sem ênfase e sem lágrimas, uma criatura que age
de forma bondosa?
(*) Eterno – que nunca
teve princípio. Perpétuo – que em determinado momento teve um início.
Autor: Gérson Gomide
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