sexta-feira, 11 de novembro de 2022

ARIDEZ

 

ARIDEZ

 

 

Em tempos de antanho Santo Agostinho rogou: “Que meu nome seja pronunciado como sempre foi, sem ênfase de nenhum tipo. Sem nenhum traço de tristeza”.

Para que assim seja, mister se faz que aquele que é lembrado tenha a desenvoltura do entendimento e da gratidão, coisas raras nos dias atuais.

É verdade que o praticante do bem que se apoia em sólida compreensão e desprendimento não pretende receber paga, reposição ou torna pelo benefício prestado; entretanto, na maioria das atitudes advindas da ingratidão fica demonstrado o desprezo e indiferença ao benfeitor, colocando em evidência o próprio desequilíbrio espiritual.

Como colocar em prática a rogativa de Santo Agostinho se as pessoas ingratas, embora nada delas se espere, são lembradas, embora sem ênfase, com tristeza e até mesmo piedade. Por outro lado, muitos dos que, por oportunismo ou qualquer outro motivo praticam o bem, e nada recebendo em troca, exclamam: “Não esperava tal atitude, mas comigo é uma vez só”. Lamentável, sem dúvida!

Quase todos os habitantes desde mundo agressivo e renitente alimentam  como meta suprema, habitar “ad aeternum” ou “ad perpetuam”(*) os limites dum nirvana próprio, obsidiando-se com o desejo incontido de adentrar permanentemente e em definitivo ao estilo hedonista de liberdade, beleza, felicidade, prazer e fortuna, mas raros são os que merecem habitar o Nirvana do contexto Budista que versa sobre a felicidade profunda de quem desfruta a presença de Deus, tendo a Terra e os seus habitantes como princípio para o exercício da bondade e a filosofia beatífica como diretriz segura para tal finalidade.

É possível notar que uma parte da humanidade está devidamente preparada para socorrer, mas nem todos que são socorridos estão preparados para receber socorro, mas isto poderá ser mudado quando o mundo das criaturas evoluir para o mundo do Criador.

A pessoa prestativa não escolhe dia, lugar e hora. Ela simplesmente age em benefício de algo ou de alguém, consolidando-se a atitude em duas categorias distintas: os bons e os bondosos. Os bons são essenciais à sobrevivência dos desvalidos; os bondosos são extremamente necessários como exemplos para que os bons se tornem afetuosos, meigos, carinhosos.

Como desfecho, uma história verídica: por algum tempo, numa época em que poucos destinavam alimento aos desabrigados e até ocorrer o sumiço do beneficiado, um jovem nutria todos os dias, fizesse sol, chuva ou frio um mendigo sem teto, levando-lhe o alimento da manhã. Não recebia nenhum agradecimento por palavras porque o indigente era mudo, mas lia na face e nos olhos as palavras: “Deus lhe pague por ter notado que eu existo.”

E deixo para o final a seguinte indagação: É possível esquecer sem ênfase e sem lágrimas, uma criatura que age de forma bondosa?

 

(*) Eterno – que nunca teve princípio. Perpétuo – que em determinado momento teve um início.

 

Autor: Gérson Gomide

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