sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

ÚLTIMAS PALAVRAS - Autor: Gérson Gomide

 ÚLTIMAS PALAVRAS

 

Você sabe o que é epitáfio? Não, não é nome próprio de alguém, mas serve para todo e qualquer cidadão em última ocasião. Isto mesmo, em derradeira ocasião. Epitáfio e, por assim dizer, um breve elogio para quem sob ele repousa, pode ser também um relato, notícia ou mais precisamente a inscrição em laje própria sobre uma tumba.

 

Tétrico? Nem tanto... Todos nós um dia vamos finar, aliás alguns nesse estado há longo tempo se encontram e disso ainda não se aperceberam. Que pena!

 

Bem, o propósito não é encucar ninguém, mas sim recordar alguns epitáfios, mesmo porque epitáfio desperta curiosidade. Não acredita? Então leia o que diz Enos Teodoro Wanke: “Gosto de ir aos cemitérios, admirar os túmulos dos que venceram na vida”.

 

Nem sempre o epitáfio representa o currículo de quem se finou, porque é comum a recomendação tumular: "Descanse em paz", mesmo que o "dito cujo" ou “de cujus” não tenha sido em vida muito pacífico. Interessante é de se notar, também, que nos meios forenses usa-se a expressão "autor da herança" para se referir ao finado que está com os bens em inventário ou em disputas hereditárias. Esta é uma das autorias que a grande maioria sistematicamente se recusa aceitar.

 

Assim sendo, vamos à reprodução de alguns epitáfios, postergando o meu e o seu, principalmente o meu, para mais tarde, em tempo muito, muito mais distante dos dias de agora.

 

Aquele a que nos referimos em seguida, deve-se a D. de La Monnoye, sobre o abade de La Riviére que havia legado, por testamento, uma centena de escudos a quem redigisse seu elogio final:

 

Aqui jaz um grande personagem

Que descendia de ilustre linhagem

E possuía mil e uma qualidades.

Nunca enganou. Sempre foi muito sábio...

Basta! Já menti demais por apenas 100 escudos. (Hoje Euros).

 

Este outro é mais conciso. Pudera, veja para quem – Maria Teresa, da Áustria, 1780:

 

Pelo sexo, uma mulher.

Pela capacidade, um homem.

 

Hoje ele seria contestado porque a capacidade, concluímos, é igual ao homem e a mulher; o diferencial situa-se na aptidão ou experiência de cada qual.

 

Este não é precisamente um epitáfio, mas é proverbial e italiano:

 

Para receber elogios, o melhor é morrer.

 

Joseph II, Imperador do Santo Império Romano parece não ter partido muito satisfeito consigo mesmo, pois em 1789 sentenciou “Que meu epitáfio seja:

 

Aqui jaz Joseph, que fracassou em tudo que fez.

 

Este outro, James Alberry, seguiu o mesmo desânimo de Joseph II, pois assim redigiu o seu último dito:

Dormiu debaixo da lua. Aqueceu-se ao bom sol.

Viveu pensando no que iria realizar e morreu sem nada fazer.

 

Também creditado a outro que sob a laje sonha:

 

Meus amigos, acreditai que durmo.

 

O supracitado é de Stanislas de Bouffers, por ele escrito em 1815.

 

Em tumbas romanas era muito comum, por falta de criatividade não cremos, por tradição sim, esta sentença:

Sit tibi terra levis – Que a terra te seja leve.

 

Hoje ainda se repete esse epitáfio, mas não como tal, e sim como sentença para aqueles que durante a vida não primaram por bom comportamento ou boas atitudes.

 

O próximo é atribuído a Andrew Carnegie (1837-1919), que dominava a arte de fazer elogios e encorajamento aos seus colaboradores:

 

Aqui jaz um homem que soube rodear-se de outros mais capazes do que ele.

 

Benjamin Franklin, físico e político norte-americano, inventor do pára-raios acreditava em outras vidas, eis que de sua lavra o epitáfio seguinte, a si próprio dedicado:

 

O corpo de B. Franklin, tipógrafo tal como a cobertura de um velho livro,

seu conteúdo rasgado e despojado de suas frases douraduras

aqui jaz, alimento para vermes; mas o trabalho não ficará perdido,

pois acredita que tornará a aparecer, uma vez mais,

em edição nova e mais elegante, corrigida e melhorada pelo autor.

 

O epitáfio dos solteiros:

Adeus vida boa.

O epitáfio litúrgico para o casamento:

 

Até que a morte os separe.

 

Luiz Gama (1830-1882), advogado de etnia negra, abolicionista, poeta, referido por Raul Pompéia em artigo para a Gazetta de Notícias, ficou assim elogiado em escrito lapidar ainda que não fosse um epitáfio:

 

Dois olhos cruelmente cerrados para sempre

sob o amplo céu, de estrelas resplendente, sobre as mais suaves estrelas de bondade e esperança, dois lábios colados como as pálpebras,

selados por um ligeiro sorriso irônico sobre

as mais ternas consolações de um grande coração.

 

Este foi sob encomenda para Alexandre, o Grande (356-323 a.C.):

 

Uma sepultura é suficiente agora

Para quem o mundo inteiro não era suficiente.

Meditemos...

 

O epitáfio – segundo Ambrose Bierce, prova que as virtudes outorgadas pela morte tem efeito retroativo. Ademais, o dito americano escarnece: “Se os mortos pudessem ler os epitáfios que seus herdeiros lhes consagram, achariam que entraram no cemitério errado”.

Este colhi in loquo:

Não derrame lágrimas.

Profira uma prece.

 

Este outro é dedicado a Pietro Aretino, um ateu, ao que parece, temente.

 

Aqui jaz o poeta toscano Aretino

Que falou mal de todos, salvo de Deus,

Desculpando-se com as palavras: “Não o conheço.”

 

Robert Louis Stevenson, pelo visto, nada tinha a reclamar mesmo da morte: ficar.

 

lá estar.

Este, composto por Lord Byron está inserto no livro Byron, de André Mourais:

 

Perto deste lugar repousam os restos de um ser

Que possui a beleza sem a vaidade,

A força sem a insolência,

A coragem sem a ferocidade,

E todas as virtudes do homem sem os seus vícios.

Este elogio, que seria uma absurda lisonja

Se estivesse inscrito sobre cinzas humanas,

Não é senão um justo tributo à memória de

Boatswain, um cão.

Nascido na Terra Nova, em maio de 1802

E morto em Newstead Abbly, a 18 de novembro de 1808.

 

Abul Al-Atahia mandou que gravassem no seu túmulo:

 

Uma vida que termina com a morte é uma vida cheia de amargura.

 

Outrossim, o epitáfio de muitas pessoas, segundo Nicholas Murray, deveria ser:

 

Falecido aos 30, sepultado aos 60

 

Muitas pessoas, numa expressão razoavelmente rude, são confundidas com o W.C., só são procuradas quando quem as procura tem dor de barriga e, na maioria das vezes o beneficiado, depois de devidamente atendido, “some do mapa”, deixando prejuízos.

 

No Campo Santo de Vila Mariana (São Paulo), exatamente sobre o espaço onde repousa Cláudio Cordello (27-10-38 – 30-09-05), um homem que, pelo jeito, muito ajudou e outro tanto de pontapés levou; por solicitação do referido está fixada em seu leito final, uma placa com uma frase de sua autoria, ali colocada por sua esposa, que atendeu a solicitação do marido:

 

Aqui jaz um homem que morreu de saco cheio

 

Muitas mesas ou guichês de repartições públicas deveriam ostentar:

 

Aqui jaz Fulano de Tal.

Completamente morto para o serviço.

 

Você que é inteligente ou pelo menos persistente para chegar até aqui, já deve ter notado que no Brasil qualquer homem público que espoliou o povo, quando vitimado por uma doença ou acidente que o leva desta para melhor (melhor???) miraculosamente se transforma em santo e até mesmo faz milagres, diferentes dos que fazia quando vivo, muito vivo. Para estes, esquecendo que todo morto – inclusive os políticos, (sic) se transforma em santo, deveriam ser reservados epitáfios, mais ou menos, assim:

 

Orem por mim, e muito, pois vou precisar, e muito.

Desta vez fui pego.

Aqui jaz sua excelência, fulano de tal, Está onde sempre mereceu.

Aqui jaz o doutor fulano de tal. Foi para onde ninguém deseja ir.

Aqui jaz fulano de tal, Corrompeu, corrompeu e agora está sendo corrompido pelos vermes.

Aqui permanece quem acreditou que ética, honra e dignidade não significavam tudo.

Foi a maior festa vivida no Inferno com a minha chegada.

Posso não ter sido o pior, mas hoje sofro como um dos piores.

O Inferno é pior do que imaginava.

Ah, se eu soubesse naqueles tempos o que sei e sinto agora.

 

Paulo Lemiski – poeta, escreve para quem quiser ousar, dois epitáfios: o do corpo e o da alma. Veja qual pode lhe servir:

 

Aqui jaz um grande poeta;

Nada deixou escrito.

Este silêncio, acredito,

São suas obras completas.

 

Aqui jaz um artista;

Mestre em desastres.

Viveu com a intensidade da arte,

Que levou-o ao infarte.

Deus tenha pena dos seus disfarces.

 

qui jaz o Sol que criou a aurora, deu a luz ao dia e apascentou a tarde.

Para finalizar, que de há muito a alongar estou, me reportarei a um fato real e ao mais magistral de todos os epitáfios que li ou que me contaram.

 

Na fronteira dos Estados Unidos com o México, em pequeno e paupérrimo vilarejo habitava o Dr. Brackett, médico de profissão e bondoso por opção. Atendia aos doentes no pavimento superior de um modesto prédio que, como indicação e referência ostentava ao pé da escada uma placa com os seguintes dizeres: “DR. BRACKETT, LÁ EM CIMA”.

 

Todos os que o procuravam, por falta do recurso amoedado deixavam de pagar a consulta e os medicamentos, mas o Dr. Brackett não se preocupava, mesmo porque sua necessidade de sobrevivência era suprida pelos habitantes da vila com ovos, galinhas, legumes, etc. etc. Era amado por todos.

 

Ele não se casou porque no dia marcado para o matrimônio foi chamado para acudir um parto difícil em local distante e pobre. Não houve tempo para o casamento, para o parto sim, e desta forma morreu solteiro.

 

Um dia como já aconteceu com muitos e com muitos ainda irá acontecer, o Dr. Brackett faleceu. Os pobres do local providenciaram-lhe, sob lágrimas, a sepultura humilde para acolher tão querida criatura. Preocupados em homenageá-lo se viram frustrados por absoluta escassez de dinheiro. Não podiam gravar em uma lousa a perpétua manifestação de carinho e amor ao seu benfeitor.

 

Como último recurso o pai do garoto nascido no dia que seria o do casamento do médico, apanhou a placa de orientação, já inútil ao pé da escada do antigo consultório e na sepultura fixou-a por definitivo. E quem pelo jazigo hoje passa não pode deixar de ver essa placa permanentemente florida e asseada, que diz:

 

DR. BRACKETT, LÁ EM CIMA.

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