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Você sabe o que é
epitáfio? Não, não é nome próprio de alguém, mas serve para todo e qualquer
cidadão em última ocasião. Isto mesmo, em derradeira ocasião. Epitáfio e, por
assim dizer, um breve elogio para quem sob ele repousa, pode ser também um
relato, notícia ou mais precisamente a inscrição em laje própria sobre uma
tumba.
Tétrico? Nem tanto...
Todos nós um dia vamos finar, aliás alguns nesse estado há longo tempo se
encontram e disso ainda não se aperceberam. Que pena!
Bem, o propósito não
é encucar ninguém, mas sim recordar alguns epitáfios, mesmo porque epitáfio
desperta curiosidade. Não acredita? Então leia o que diz Enos Teodoro Wanke: “Gosto de ir aos
cemitérios, admirar os túmulos dos que venceram na vida”.
Nem sempre o epitáfio
representa o currículo de quem se finou, porque é comum a recomendação tumular:
"Descanse em paz", mesmo que o "dito cujo" ou “de cujus”
não tenha sido em vida muito pacífico. Interessante é de se notar, também, que
nos meios forenses usa-se a expressão "autor da herança" para se
referir ao finado que está com os bens em inventário ou em disputas
hereditárias. Esta é uma das autorias que a grande maioria sistematicamente se
recusa aceitar.
Assim sendo, vamos à
reprodução de alguns epitáfios, postergando o meu e o seu, principalmente o
meu, para mais tarde, em tempo muito, muito mais distante dos dias de agora.
Aquele a que nos
referimos em seguida, deve-se a D. de La Monnoye, sobre o abade de La Riviére
que havia legado, por testamento, uma centena de escudos a quem redigisse seu
elogio final:
Aqui
jaz um grande personagem
Que
descendia de ilustre linhagem
E
possuía mil e uma qualidades.
Nunca
enganou. Sempre foi muito sábio...
Basta!
Já menti demais por apenas 100 escudos. (Hoje Euros).
Este outro é mais
conciso. Pudera, veja para quem – Maria Teresa, da Áustria, 1780:
Pelo
sexo, uma mulher.
Pela
capacidade, um homem.
Hoje ele seria
contestado porque a capacidade, concluímos, é igual ao homem e a mulher; o
diferencial situa-se na aptidão ou experiência de cada qual.
Este não é
precisamente um epitáfio, mas é proverbial e italiano:
Para
receber elogios, o melhor é morrer.
Joseph II, Imperador
do Santo Império Romano parece não ter partido muito satisfeito consigo mesmo,
pois em 1789 sentenciou “Que meu epitáfio seja:
Aqui
jaz Joseph, que fracassou em tudo que fez.
Este outro, James
Alberry, seguiu o mesmo desânimo de Joseph II, pois assim redigiu o seu último
dito:
Dormiu debaixo da lua. Aqueceu-se ao bom sol.
Viveu
pensando no que iria realizar e morreu sem nada fazer.
Também creditado a
outro que sob a laje sonha:
Meus
amigos, acreditai que durmo.
O supracitado é de
Stanislas de Bouffers, por ele escrito em 1815.
Em tumbas romanas era
muito comum, por falta de criatividade não cremos, por tradição sim, esta
sentença:
Sit
tibi terra levis – Que a terra te seja leve.
Hoje ainda se repete
esse epitáfio, mas não como tal, e sim como sentença para aqueles que durante a
vida não primaram por bom comportamento ou boas atitudes.
O próximo é atribuído
a Andrew Carnegie (1837-1919), que dominava a arte de fazer elogios e
encorajamento aos seus colaboradores:
Aqui
jaz um homem que soube rodear-se de outros mais capazes do que ele.
Benjamin Franklin,
físico e político norte-americano, inventor do pára-raios acreditava em outras
vidas, eis que de sua lavra o epitáfio seguinte, a si próprio dedicado:
O
corpo de B. Franklin, tipógrafo tal como a cobertura de um velho livro,
seu
conteúdo rasgado e despojado de suas frases douraduras
aqui
jaz, alimento para vermes; mas o trabalho não ficará perdido,
pois
acredita que tornará a aparecer, uma vez mais,
em
edição nova e mais elegante, corrigida e melhorada pelo autor.
O epitáfio dos
solteiros:
Adeus
vida boa.
O epitáfio litúrgico
para o casamento:
Até
que a morte os separe.
Luiz Gama
(1830-1882), advogado de etnia negra, abolicionista, poeta, referido por Raul
Pompéia em artigo para a Gazetta de Notícias, ficou assim elogiado em escrito
lapidar ainda que não fosse um epitáfio:
Dois
olhos cruelmente cerrados para sempre
sob
o amplo céu, de estrelas resplendente, sobre as mais suaves estrelas de bondade
e esperança, dois lábios colados como as pálpebras,
selados
por um ligeiro sorriso irônico sobre
as
mais ternas consolações de um grande coração.
Este foi sob
encomenda para Alexandre, o Grande (356-323 a.C.):
Uma
sepultura é suficiente agora
Para
quem o mundo inteiro não era suficiente.
Meditemos...
O epitáfio – segundo
Ambrose Bierce, prova que as virtudes outorgadas pela morte tem efeito
retroativo. Ademais, o dito americano escarnece: “Se os mortos pudessem ler os
epitáfios que seus herdeiros lhes consagram, achariam que entraram no cemitério
errado”.
Este colhi in loquo:
Não
derrame lágrimas.
Profira
uma prece.
Este outro é dedicado
a Pietro Aretino, um ateu, ao que parece, temente.
Aqui
jaz o poeta toscano Aretino
Que
falou mal de todos, salvo de Deus,
Desculpando-se
com as palavras: “Não o conheço.”
Robert Louis
Stevenson, pelo visto, nada tinha a reclamar mesmo da morte: ficar.
lá estar.
Este, composto por
Lord Byron está inserto no livro Byron, de André Mourais:
Perto
deste lugar repousam os restos de um ser
Que
possui a beleza sem a vaidade,
A
força sem a insolência,
A
coragem sem a ferocidade,
E
todas as virtudes do homem sem os seus vícios.
Este
elogio, que seria uma absurda lisonja
Se
estivesse inscrito sobre cinzas humanas,
Não
é senão um justo tributo à memória de
Boatswain,
um cão.
Nascido
na Terra Nova, em maio de 1802
E
morto em Newstead Abbly, a 18 de novembro de 1808.
Abul Al-Atahia mandou
que gravassem no seu túmulo:
Uma
vida que termina com a morte é uma vida cheia de amargura.
Outrossim, o epitáfio
de muitas pessoas, segundo Nicholas Murray, deveria ser:
Falecido
aos 30, sepultado aos 60
Muitas pessoas, numa
expressão razoavelmente rude, são confundidas com o W.C., só são procuradas
quando quem as procura tem dor de barriga e, na maioria das vezes o beneficiado,
depois de devidamente atendido, “some do mapa”, deixando prejuízos.
No Campo Santo de
Vila Mariana (São Paulo), exatamente sobre o espaço onde repousa Cláudio
Cordello (27-10-38 – 30-09-05), um homem que, pelo jeito, muito ajudou e outro
tanto de pontapés levou; por solicitação do referido está fixada em seu leito
final, uma placa com uma frase de sua autoria, ali colocada por sua esposa, que
atendeu a solicitação do marido:
Aqui
jaz um homem que morreu de saco cheio
Muitas mesas ou
guichês de repartições públicas deveriam ostentar:
Aqui
jaz Fulano de Tal.
Completamente
morto para o serviço.
Você que é
inteligente ou pelo menos persistente para chegar até aqui, já deve ter notado
que no Brasil qualquer homem público que espoliou o povo, quando vitimado por
uma doença ou acidente que o leva desta para melhor (melhor???) miraculosamente
se transforma em santo e até mesmo faz milagres, diferentes dos que fazia
quando vivo, muito vivo. Para estes, esquecendo que todo morto – inclusive os
políticos, (sic) se transforma em santo, deveriam ser reservados epitáfios,
mais ou menos, assim:
Orem
por mim, e muito, pois vou precisar, e muito.
Desta
vez fui pego.
Aqui
jaz sua excelência, fulano de tal, Está onde sempre mereceu.
Aqui
jaz o doutor fulano de tal. Foi para onde ninguém deseja ir.
Aqui
jaz fulano de tal, Corrompeu, corrompeu e agora está sendo corrompido pelos
vermes.
Aqui
permanece quem acreditou que ética, honra e dignidade não significavam tudo.
Foi
a maior festa vivida no Inferno com a minha chegada.
Posso
não ter sido o pior, mas hoje sofro como um dos piores.
O
Inferno é pior do que imaginava.
Ah,
se eu soubesse naqueles tempos o que sei e sinto agora.
Paulo Lemiski –
poeta, escreve para quem quiser ousar, dois epitáfios: o do corpo e o da alma.
Veja qual pode lhe servir:
Aqui
jaz um grande poeta;
Nada
deixou escrito.
Este
silêncio, acredito,
São
suas obras completas.
Aqui
jaz um artista;
Mestre
em desastres.
Viveu
com a intensidade da arte,
Que
levou-o ao infarte.
Deus
tenha pena dos seus disfarces.
qui jaz o Sol que
criou a aurora, deu a luz ao dia e apascentou a tarde.
Para finalizar, que
de há muito a alongar estou, me reportarei a um fato real e ao mais magistral
de todos os epitáfios que li ou que me contaram.
Na fronteira dos
Estados Unidos com o México, em pequeno e paupérrimo vilarejo habitava o Dr.
Brackett, médico de profissão e bondoso por opção. Atendia aos doentes no
pavimento superior de um modesto prédio que, como indicação e referência
ostentava ao pé da escada uma placa com os seguintes dizeres: “DR. BRACKETT, LÁ
EM CIMA”.
Todos os que o
procuravam, por falta do recurso amoedado deixavam de pagar a consulta e os
medicamentos, mas o Dr. Brackett não se preocupava, mesmo porque sua
necessidade de sobrevivência era suprida pelos habitantes da vila com ovos,
galinhas, legumes, etc. etc. Era amado por todos.
Ele não se casou
porque no dia marcado para o matrimônio foi chamado para acudir um parto
difícil em local distante e pobre. Não houve tempo para o casamento, para o
parto sim, e desta forma morreu solteiro.
Um dia como já
aconteceu com muitos e com muitos ainda irá acontecer, o Dr. Brackett faleceu.
Os pobres do local providenciaram-lhe, sob lágrimas, a sepultura humilde para
acolher tão querida criatura. Preocupados em homenageá-lo se viram frustrados
por absoluta escassez de dinheiro. Não podiam gravar em uma lousa a perpétua
manifestação de carinho e amor ao seu benfeitor.
Como último recurso o
pai do garoto nascido no dia que seria o do casamento do médico, apanhou a
placa de orientação, já inútil ao pé da escada do antigo consultório e na
sepultura fixou-a por definitivo. E quem pelo jazigo hoje passa não pode deixar
de ver essa placa permanentemente florida e asseada, que diz:
DR. BRACKETT, LÁ EM CIMA.
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