quinta-feira, 15 de outubro de 2009

AMAR É...

     Dia desses recebemos em nosso escritório uma senhora para uma consulta profissional.
     Mostrava-se aflita e percebia-se a sua insegurança em relatar o seu problema. Após os primeiros contatos e sabedora de minha condição de estudioso da Doutrina dos Espíritos, mais à vontade, relatou que vinha passando por sérios conflitos existenciais e de não conformismo com o acontecimento dos fatos da vida real.
     Havia assistido na TV o caso da filha de famoso jogador de futebol desencarnada recentemente e que só teve sua paternidade reconhecida por determinação judicial.
     Traçou um paralelo com a sua própria vida, porquanto, também ela, da mesma forma, somente teve o reconhecimento da sua paternidade por meio da justiça, acusando seu pai biológico de ser totalmente insensível e irresponsável.
     Queixava-se que, durante toda sua vida, o pai biológico jamais lhe dera um único presente. Carinho, nem pensar... Contudo, acrescentou que, na verdade, os pais biológicos não chegaram a se casar e ela foi adotada por uma família maravilhosa. Daí passou a descrever os pais adotivos, já desencarnados, como verdadeiros heróis e amorosos ao extremo. Deram-lhe educação, carinho, amor, estrutura familiar e tudo que ela tinha de bom na vida. Mas, no fundo, guardava ainda, pesado ressentimento de seu pai biológico. Não entendia o abandono e por que ele jamais a procurou. Percebia-se, nela, que a mágoa vinha se arrastando há muito tempo, pois a própria afirmou que já passava dos sessenta anos. Mágoa que lhe fazia sofrer e querer buscar as respostas para o que ela julgava ser um verdadeiro drama em sua vida.
     A lição que se tira do relato acima, comum nos dias atuais, é a de que estamos ainda muito distantes dos ensinamentos do Mestre com relação ao perdão. Não perdoamos os erros dos outros e estamos sempre implorando para que o Pai perdoe os nossos erros! O que provavelmente pode ter ocorrido com relação aos seus pais biológicos é que, na imaturidade dos verdes anos da vida, descuidaram-se e não estavam preparados para sagrada missão da paternidade. Por outro lado, como nos ensina a doutrina dos Espíritos, Deus, na sua infinita justiça e bondade, não descuidou daquela criança e ela acabou sendo adotada por verdadeiros pais, que a aceitaram dando-lhe amor, carinho, proteção e um guia seguro para seguir em frente.
     O que restou patente é que os pais biológicos serviram, apenas, de meio para o renascimento daquele espírito que, pelas suas necessidades a serem atendidas, criou-se o vínculo com a família que o adotou e que provavelmente estava na pauta daquilo que ele carecia para confirmar sua sintonia com a grandeza da vida. Nada ocorre por acaso, contudo é necessário compreendermos a verdadeira fé no Criador que atua, sempre, para que seus filhos tenham as melhores oportunidades de crescerem e evoluírem.
     A senhora, como muitos de nós ainda, não compreendeu é que a família é muito mais do que um resultado genético ou de um relacionamento fortuito entre duas pessoas... São os ideais, os sonhos, os anelos, as lutas e as árduas tarefas, os sofrimentos e as aspirações, os ensinamentos morais que nos elevam e se fortalecem nos liames da concessão divina, no mesmo grupo doméstico onde se formam as nobres expressões da elevação espiritual.
     O sentimento de mágoa deve ceder lugar a um ato de compreensão do limite emocional e espiritual em que a pessoa se encontra. Ninguém pode dar o que não tem! É provável que o gerador dessa situação penosa acreditasse estar fazendo o melhor, porquanto, no seu nível de entendimento e de imaturidade psicológica, essa era a medida de comportamento e o mecanismo para bem enfrentar os desafios da vida, naquele momento.
     Assim, exigir ou cobrar amor e afeto de quem não pode dar é pura ilusão.
     Por fim, a senhora declarou que agora entendia porque não sentira a falta de carinho e afeto enquanto seus pais adotivos eram vivos, e que não mais esperaria que seu pai biológico a procurasse e que, na verdade, ela tinha muito mais a agradecer à bondade divina por tudo que recebeu da sua verdadeira família ao longo dos anos.
     Conclui-se que, sem duvida, o amor é o verdadeiro milagre da vida. É a terapia eficaz para vários distúrbios de comportamento, desde que o paciente se resolva pelo ato de ser aquele que ama. Perdoar e se perdoar será sempre a solução...

Edson Tomazelli – Jornal Ação Espírita (Marília-SP.) - edição 89 – Jul/Ago/Set. 2009

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