Sagrado e Profano
De posse de um
conhecimento meramente especulativo e segundo um conjunto de regras ou leis
precariamente estabelecido como isento de falha, erro ou defeito, o indivíduo,
com simplismo ou impropriedade, atribui aos atos próprios como sagrados, e os
de terceiros, se não lhes agradam, como profanos. É uma prática um tanto quanto
precipitada porque é costumeira a condescendência com as próprias atitudes bem
como a contundência com as do próximo.
É oportuno esclarecer que
neste texto não é atribuído ao profano o caráter clerical e sim o traço
distintivo daquilo ou daquele que deturpa ou viola as coisas e direitos
individuais; da mesma forma, ao sagrado é conferida a qualidade peculiar
daquilo que se sagrou pelo uso e costume como bom para o espírito e/ou para o
intelecto. As nossas palavras não se abeiram, pois, da Teologia, do
Cristianismo, da Teosofia ou do Iluminismo.
O mundo está repleto de pessoas que julgam que sua faculdade de agir e também o
resultado de suas ações é que estão corretos; que seus vícios não se
caracterizam como tal e que todos os pontos negativos que se somam em seu
currículo aconteceram por obra e culpa alheia. Para estes, a vida estabelece
como direito legítimo ou mesmo suposto, que se faça uma escolha e tal escolha
vai se situar sempre entre o profano e o sagrado; entretanto, dessa escolha
resta uma certeza irrevogável: escolher uma coisa é renunciar a todas as
outras.
Sob ótica geral talvez o sagrado e o profano para muitos não se qualifiquem
como prioritários, mas sabemos que um ou outro podem situar-se nos pequenos
detalhes que dão consistência ao dia a dia. Assim, muitos, em atitude
descortês, escolhem o profano e se recusam serem perturbados pelo mundo e pelas
pessoas ao seu redor, porém por várias vezes e variados motivos se decidem por
perturbar tudo e todos. A opção de alguns, em determinada situação, é pelo
egoísmo/egocentrismo, que exigem que todos os demais se tornem seus serviçais.
Para outros, é o da apatia, pois para estes o sofá foi criado para assistir
televisão e não para o exercício do verbo e troca de ideias com os que lhes
compartem o lar. Em qualquer situação, diálogo recusado é entendimento perdido.
Descartar a gentileza e a prosa significa desprezo à perfeita convivência. É
oportunidade posta de lado, sem considerar que esta não costuma se repetir e
quando repete, o objeto para o qual converge o desejo, provavelmente já terá
perdido o sabor.
Atitude profana a encontramos no homúnculo que incontáveis vezes escolhe não prestar
reverência às pessoas ao negar-lhes o cumprimento, a cortesia, o sorriso, o
pedido de desculpas; também é profano a usurpação de espaços restritos ou
especiais, não permitindo o direito aos quem têm direitos.
Os que vivem em sociedade ou em co-participação temporária ou demorada de
espaços tem o dever, como elemento integrante, de conhecer e observar os
costumes da vida social. Os que se recusam agir ignorando as formalidades e
procedimentos que retratam boas maneiras e respeito entre os cidadãos, devem se
encaminhar urgentemente ao adestramento...
A vida é uma seqüência de uniões e separações. Por opção, por imposição ou
necessidade ficam para trás, às vezes sem oportunidade de despedida, pessoas,
lares e empregos, cuja satisfação deles advindos seria prazeroso usufruir por
longo tempo. Se levadas a sério, todas as uniões serão sagradas, porque
representam a somatória ou a multiplicação de bens que engrandecem ou
esclarecem os agregados; de outro lado, os re-ciprocamente afastados por divergências
ou desavenças, não devem jamais assumir o caráter de profanos, ou seja, cada
qual atirando para todos os lados na esperança de que o outro seja atingido.
Lao-tsé, filósofo chinês que viveu no século 4º antes de Cristo afirmava: “a bondade nas palavras cria a confiança, a bondade nos pensamentos cria a plenitude, a bondade nas doações cria o amor”. O ensinamento é oriental, mas a sua prática deveria abranger toda a humanidade. A palavra compreensiva entrelaça a amizade e não a deixa esvair-se. O pensamento sensato organiza e rege a harmonia e o equilíbrio mental. A doação é a materialização do amor. Agindo assim fugimos do profano e adentramos ao sagrado. Necessitamos falar e ouvir palavras doces para que a vida manifeste todos os valores que o profano tenta ocultar. É urgente disciplinar pensamentos e projeta-los apenas quando o sagrado lhes dá matizes multicores. A doação é o braço direito da caridade e assume a fisionomia do sagrado, pois que é a manifestação a sobressair o amor ao próximo e a resumir o amor a Deus sobre todas as coisas.
Lao-tsé, filósofo chinês que viveu no século 4º antes de Cristo afirmava: “a bondade nas palavras cria a confiança, a bondade nos pensamentos cria a plenitude, a bondade nas doações cria o amor”. O ensinamento é oriental, mas a sua prática deveria abranger toda a humanidade. A palavra compreensiva entrelaça a amizade e não a deixa esvair-se. O pensamento sensato organiza e rege a harmonia e o equilíbrio mental. A doação é a materialização do amor. Agindo assim fugimos do profano e adentramos ao sagrado. Necessitamos falar e ouvir palavras doces para que a vida manifeste todos os valores que o profano tenta ocultar. É urgente disciplinar pensamentos e projeta-los apenas quando o sagrado lhes dá matizes multicores. A doação é o braço direito da caridade e assume a fisionomia do sagrado, pois que é a manifestação a sobressair o amor ao próximo e a resumir o amor a Deus sobre todas as coisas.
A vida não é apenas o que nos acontece, o que fazemos acontecer ou o que se
recusa acontecer. Ela é a somatória dos momentos que se arquivaram no passado,
dos momentos que impulsiona o presente em busca do futuro. Mesmo que esses
momentos não sejam tão bons como é o desejo que fossem, e cabe a cada um
administrar a própria felicidade ou tristeza. Alegrias e mágoas são condimentos
que temperam o dia a dia às vezes sem consulta ao paladar, e sempre por
questões de sobrevivência é aconselhável aceitar o tempero por mais apimentado
que seja.
O filósofo alemão Friedrich Nietzche, talvez escorado pela revolta, afirmou:
“Deus está morto”. Não sabemos com que autoridade tenha firmado esse atestado de
óbito. Talvez as suas palavras retratem uma alma atolada na solidão, talvez
vitimada pela indiferença e desprezo, talvez ferida em suas mais caras
aspirações. Hoje nos sobra a certeza de que morto está o filósofo Friedrich e
que Deus permanece vivo em bilhões de corações.
Há pouco mais de dois mil anos, um Homem veio ao mundo para pregar amor,
bondade, perdão e humildade. Muitos aprenderam, outros tantos, não! Para os que
se demoram aprender, o profano lhes é sagrado; para os que pela conscientização
guardaram na memória e nas atitudes esses ensinamentos, o sagrado lhes é
profundamente sagrado.
Gérson Gomide
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