Em Papéis Avulsos: “Teoria do Medalhão”, Machado de Assis, que dispensa apresentação, exorta:
Sentenças latinas, ditos históricos, versos célebres, brocados jurídicos, máximas,
é de bom aviso trazê-los contigo para os discursos de sobremesa, de felicitação
ou de agradecimento.
Muitas vezes a presença de espírito que nos chama a atenção, são meras citações de renomados autores, adaptadas e climatizadas para o momento.
Paul Lèataud afirma que não há sentenças, máximas, aforismos de que não se possa escrever o contrário.
Sem dúvida uma verdade, não só no sentido de contrariar o dito, como de ironizá-lo, amenizá-lo ou adaptá-lo às circunstâncias, com humor ou com acidez. Assim o nosso adagiário fica entrelaçado, superposto, complementado e cada vez mais interessante.
Isto posto, recordemos La Fontaine:
A razão do mais forte é sempre melhor.
Victor Hugo retruca:A razão do melhor é sempre a mais forte.
Quem está - sem intenção de trocadilho – com a razão? Pelos tempos atuais La Fontaine leva de vencida porque hoje se pode afirmar que quem pode mais, além de chorar menos (se é que chora), ganha ou consegue tudo. É a lei da força, da coerção, do desmando, da injustiça, mas Victor Hugo prospera entre os que têm noção de valores e princípios de civilidade e Justiça, os quais, em tempos avançados triunfarão.
Descartes, após longa reflexão chegou à conclusão sobre o seu existir, com abstração feita à matéria:
Penso, logo existo.
Nosso culto e querido patrício, Mário da Silva Brito, movido mais pelo humor que pelo desânimo, fulmina:
Penso, logo desisto.
Quantos não adotam este último trocadilho reformado para agir ou escapar segundo sua própria maneira de ser
Penso, logo fujo.
Penso, logo não assumo.
Penso, logo trapaceio.
Na permanente busca de algo ou alguém que anime nosso roteiro, agimos de acordo com a aptidão que nos é peculiar, ou desprezamos a própria capacidade deixando que as coisas aconteçam.
Para estes últimos, Jean Cocteain tem uma receita:
Achar primeiro. Procurar depois.
Replicamos:Procurar primeiro. Achar depois.
Já outros, em campos mais transcendentais divagam na incerteza de Bernanos, em Diálogos dos Carmelitas:
O que chamamos acaso talvez seja a lógica de Deus.
Retificamos, segundo nosso próprio entendimento:
O que chamamos acaso é a lógica de Deus.
Em “Os Caracteres” temos La Bruyère afirmando:
Para o homem só há três acontecimentos: nascer, viver e morrer.
Entretanto, ousamos:
Para muitos homens só há dois acontecimentos: nascer e morrer.
Para outros, e não são poucos há três acontecimentos: nascer, morrer, renascer.
Como se pode ver, nada é definitivo em termos de crença, tanto pessoal como religiosa.
A voz da caridade afirma:
Quem dá aos pobres empresta a Deus.
A da mesquinhez complica:Quem dá ou empresta aos pobres, adeus.
Os que lustram a esperança com o brilho da certeza fazem destas palavras o primeiro verso de sua fé:
A esperança é a última que morre.
Ao que os derrotados aduzem:...Mas morre.
Ou:Os melhores perfumes são encontrados nos menores frascos.
Os piores venenos também.
Ou nas desculpas e justificativas:Errar é humano.
Acertar, não é?
John Dryden e E.Y. Harbourg não partilham a mesma opinião com relação à virtude:
A virtude é sua própria recompensa.
A virtude é seu próprio castigo.
Um mesmo autor, numa mesma obra, proferiu duas verdades, com sentido oposto:
Não respondas ao insensato segundo a sua estultícia, para que não te faças semelhante a ele. (Bíblia - Provérbios, 26:4)
Ao insensato responde segundo a sua estultícia para que ele não seja sábio aos seus próprios olhos. (id. id. 26-5).
Os árabes têm, dentre outros, um provérbio que aconselha:
Consulte tua mulher, e faze o contrário.
Já o francês:Quem quiser prosperar deve ouvir os conselhos da sua mulher.
E para encerrar:
Quem pode, pode.
Quem não pode se sacode.
Quem pode, pode.
Quem não pode, aplaude.
Quem pode, pode.
Quem não pode, assiste.
Com quem pode não se brinca
Com quem se brinca não pode.
A vida é o que é porque lhe damos essa consistência e ritmo. Somos nós que pintamos seus arco-íris ou planejamos suas tempestades; somos nós que florimos seus jardins ou ceifamos suas flores. Somos nós que compomos seus versos ou ilustramos seus desatinos. A vida é assim porque a construímos nivelada ou em desnível, harmônica ou destoada. Verdadeiramente a vida, resumindo, é alegria, bem–estar, felicidade, paz.
Com o que contribuímos para que assim seja ou fique sendo?
Em todo o caso a certeza:
Vale a pena viver; sempre viver.
Vale viver sempre; apenas viver.
Autor: Gérson Gomide
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