Minha querida mãezinha,
Há duas coisas que lhe quero dizer de imediato: a primeira, não pergunte e tampouco busque explicações para entender de que maneira e com que recur-so lhe escrevo, pois há muitas possibilidades à disposição do homem às quais o senso comum não pode, por enquanto, nem imaginar; e a segunda, agradecer-lhe a oportunidade que me concedeu ao receber-me por filho e assim tratar-me durante todos estes anos.
Sempre quis escrever algo, tanto para você, como para todos os demais que se interessam por alguém como eu, contudo, sempre fui cerceado pela excep-cionalidade. Hoje, porém, sinto chegado o dia e que a hora é esta. Não preten-do grandes tiradas - não as conseguiria; quero me ater à singeleza de minha ma-neira de ser. Pretendo rabiscar nestas linhas algo que eu e os meus iguais senti-mos. Antecipo que encontro dificuldades na maneira pela qual ora me expresso. Isto me custa bastante esforço e tenacidade, mas sei que um só sorriso que você possa irradiar e uma só emoção que possa sentir ao ler estas letras já me bastam como recompensa ou, mais precisamente, como dádiva de Deus.
Primeiramente, quero afirmar que sou feliz, e o sou porque a tenho como mãe querida. Desde o princípio, ainda no seu ventre, quando me senti diferente, preo-cupei-me com o futuro. Que seria de mim e de meus pais? Como seria minha vi-da? Perguntas que me fiz e que você e o amoroso paizinho responderam com gestos de amor e ternura. Nada me falta. Todos os recursos de que careço para sobreviver eu os tenho e muito me preza afirmar que ao sentir suas mãos desli-zando em meu rosto naquele gesto carinhoso, tão próprio de você, sinto Deus em mim e se pudesse ou conseguisse bradaria aos quatro ventos que a vida é belís-sima e que é ótimo viver.
Tenho consciência de que lhe dou muito trabalho, mas que posso fazer se sou tão pequeno, fraco, indefeso e dependente? Gostaria de ser diferente do que sou somente para poupar-lhe esforços e dar-lhe mais tempo para o descanso, mas Deus quer que assim seja, e quem sou eu para questionar-Lhe a Justiça, Bon-dade e Misericórdia?
Quero que saiba que não obstante minha deficiência sou um Espírito lúcido; confirmo-lhe de todo o coração que já aprendi a amar; que gosto de ser amado; que meus sentimentos são iguais aos de meus irmãos ditos normais. Aprendi a dis-cernir alegria e tristeza, mesmo porque as sinto de quando em quando e toda vez em que olhos curiosos pousam em mim sinto-me pequenino. Até mesmo fico triste quando não me tratam bem, mas muito radiante quando um desconhecido qualquer me trata ou olha com simpatia. Sei que não possuo beleza alguma, en-tretanto posso dizer com segurança que depende somente de você para que eu me torne uma das mais belas estrelas da Constelação Divina. Saiba, por fim, que me sinto um verdadeiro ser humano, e não poderia ser diferente, e que tenho consciência de que sou um filho muito amado por Deus.
Não falo todas estas coisas com o intuito de despertar-lhe a atenção para al-gum fato ou para que demonstre alguma outra virtude. Você tem todas as virtu-des que um filho busca e necessita em sua mãe. Falo estas coisas para confirmar tudo o que você sabe a meu respeito e a respeito dos meus sentimentos. Falo para que você tome conhecimento de que sei de tudo o que se passa em seu coração, que pode não ser o maior do mundo, mas, seguramente, para mim é o mais aconchegante.
Quando ouço alguém dizer, ao se referir ao filho recém-nascido que "graças a Deus é perfeito", tão logo à memória me vem as palavras de Jesus: "...os sãos não necessitam de médicos". Somos nós, mamãezinha, que mais necessitamos de amor, seja em que expressão for: materna, fraterna, universal, e até mesmo em momento angustiosos até baste a solidariedade. Por favor, ensine-lhes repetir sem ressalvas ou restrições as palavras do mesmo Jesus: "...deixai vir a mim os peque-ninos..."
Quando recentemente tomei conhecimento de que é possível estabelecer com precisão se o feto possui alguma anomalia tornando-o propenso a retardo ou deficiência mental e justificando tal possibilidade em alguns países o aborto eugênico, senti um frio percorrer-me a espinha. Pergunto e ninguém precisa res-ponder: por que recusar um filho se antes de ser do homem e da mulher é de Deus? Por que trocar a própria paz e também a felicidade do nascituro pelos sor-risos temporais da sociedade dispersiva? Quem vale mais, um filho saudável ou um deficiente? É possível, com isenção de ânimo, estabelecer paralelos? Não obstante a agressão do aborto, Deus tem o agressor, qual o agredido como seus filhos amados. É bom que todos saibam disso, da mesma forma que é bom saber que nosso físico não é jamais o retrato de injustiça divina.
Antes de encerrar, quero que transmita ao papai o meu afeto de filho reco-nhecido e que o preito que ora rendo a você o abarca também.
Para finalizar lhe segredo que há tempos atrás julgava ser você igual a todas as mães da terra; hoje aguardo com muita esperança que todas as outras mães um dia possam se tornar iguais a você no brilho do amor e no reflexo da bonda-de.
Agradeço por tudo que me faz e convicto afirmo que até hoje e por toda a eternidade, excepcional tem sido e será o amor que você me dedica e que lhe retribuo comovido.
Do filho amado e amoroso, sempre, sempre seu.
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Autor: Gérson Gomide
(Publicado na RIE – Revista Internacional de Espiritismo)
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