quarta-feira, 7 de outubro de 2009

A MELHOR COMPANHEIRA - Autor: Gérson Gomide

Kardec, pela obra, gravuras e exposições verbais, todos conhecemos. Grande parte sabe falar e grafar por inteiro seu nome civil. Isto faz parte do conhecimento geral da Doutrina Espírita; aliás, se faz necessário que se conheçam detalhes significativos do Codificador e da Codificação para não aceitar, exemplificativamente, comentários maldosos como costuma ocorrer em "espetáculos" televisivos.
 Junto a Kardec, sob o compromisso de esposa, sempre esteve Amélie-Gabrielle de Lacombe Boudet, carinhosamente Gabi. Com pendores literários e dona de grande cultura, se permitia auxiliar o marido em suas atividades profissionais, doutrinárias, além de dedicar-se ao lar, propriamente dito.
 Poucos a conhecem ou dela ouviram falar, o que é absolutamente injusto. Nossa intenção, aqui, não se fixa em retratar-lhe o perfil mesmo porque os elementos biográficos se mostram parcos. O propósito principal é dizer de sua existência e falar algo sobre seu papel junto ao marido, ainda que não possamos fazer-lhe justiça neste comentário.
 Erradamente, quando se pretende elogiar determinada mulher sempre a dizem por trás de um grande homem o que injustamente lhe confere apenas o papel de sombra; o certo é afirmar que ao lado de um grande homem, ombreando-lhe, sempre se perfila uma mulher do mesmo porte.
 Amélie bem caracteriza essa mulher!
 No geral, toda mulher que não tem filhos e Amélie não os teve, nutre pelo companheiro um afeto maior, onde se misturam em doce e racional composição o amor conjugal e maternal. Em conseqüência disso ela não apenas se sente por ele protegida como, igualmente, o protege. Isto é natural, como também o é o varão entregar-se a essa ternura e proteção.
 Os fatos narrados em obras diversas nos informam que Allan Kardec por vezes se viu agredido por injúrias, difamações e maledicências, como ainda hoje o é por almas entenebrecidas. Quantos "amigos" não lhe deram as costas? Quantos outros não quitaram benefícios com ingratidão? Respeitando-os, Kardec defendeu-se ou simplesmente silenciou se o silêncio era o mais edificante.
 Em "Obras Póstumas" (2ª parte, LAKE), sob o título "Fora da Caridade não há Salvação", Kardec diz: "É certo que não me cabe fazer o inventário do bem que pratiquei, mas num momento em que parecem tudo esquecer, creio me ser permitido recordar que minha consciência não me acusa de ter feito mal a ninguém, Quanto a isso minha consciência está tranquila, e alguma ingratidão com que me tenham pago em várias ocasiões não seria motivo para eu deixar de fazê-lo". Estas palavras Kardec não as escreveu para a posteridade; foi um desabafo entristecido encontrado em seus guardados. Quantos momentos o Codificador teve iguais a este? Quem o ajudou a superá-los? Sem dúvida alguém sempre próximo e ninguém mais próximo que sua esposa Amélie, sem dúvida um Espírito de escol que ofereceu ao Missionário o ombro amigo, que lhe ouviu o desconsolo e o consolou; as decepções e o esperançou. É ela que, no recolhimento íntimo das confabulações conjugais ouve apreensões e restaura o ânimo do marido com palavras doces; que substitui a agressão gratuita com gestos ternos de alento; que lhe exalta as qualidades de marido e de amigo. É ela quem o acompanha nas preces consoladoras sob perfeita comunhão de fé e ideal.
 Quantas lágrimas não as verteu ocultamente ao se chocar com gestos e palavras que maltrataram seu companheiro? Com que apreensão sentia a demora do marido, sabedora que o inconsequente passa da palavra à ação; da ameaça à atitude e seu marido, sob a luva de ferro da maleficência de ásperos adversários, poderia ver-se frente às agressões descabidas de trevosos patrulheiros.
 Fez tudo o que uma boa esposa poderia fazer; talvez até mesmo tenha se superado no auxílio ao marido; na realização de projetos e mesmo com enorme crédito nada lhe cobra. Não solicita espaço nos livros; não exige que seu nome brilhe. Sempre ao seu lado, ombro a ombro, não como sombra, como luz.
 Allan Kardec superou fases difíceis porque à sua volta havia Espíritos lúcidos que o auxiliaram, mas também porque em todos os terrenos tinha Gabi que com ele caminhava de mãos dadas, de coração entrelaçado pelo afeto que só o amor sabe luzir.

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