quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

FRANCISCO DE ASSIS, 0 SANTO DO AMOR


       O breve período de vinte e quatro anos, que abrange a vida em santidade de Francisco de Assis, pode ser considerado como o dos mais gloriosos anos na história da Igreja. São de maior peso e importância do que a soma de todos os seus outros direitos à fama. Foram anos de realização humana, mais verdadeiros e mais completos do que qualquer outro, em outras vidas humanas antes ou depois. Porque, na existência terrena de Francisco, um laço comum de alegria dissolveu todos os contrastes e todas as contradições. O mundo interior e o mundo exterior; o homem e a natureza; o pensamento e a ação; a humildade e o poder; a renúncia e a abundância; todos se fizeram para unir-se. O abismo entre o homem e Deus teve uma ponte a uni-los. O tempo de inocência que precedeu a queda fora recobrado. O amor operara essa recuperação. O mesmo amor, que fizera de Jesus de Nazaré o intermediário entre Deus e o homem, renascera em Francisco, tinha mais uma vez assumido a forma humana e fizera de Francisco o mediador entre Cristo e seus fiéis.
       Mártires haviam dado seu sangue para testemunhar a verdade do Evangelho; sábios doutores da Igreja tinham demonstrado sua validade, por meio de deduções convincentes; ascetas haviam abandonado todos os bens terrestres, para viver inteiramente no espírito do Evangelho. Mas Francisco de Assis ouviu a mensagem de amor de Cristo Redentor e viveu em seu espírito, por meio do espírito do amor. Os piedosos cronistas posteriores ao grande santo, acrescentaram fatos e lendas para efetuar o paralelo entre as vidas de Francisco e a do Cristo, mas não são os Cínicos a quem Francisco impressionou, como o mais semelhante a Cristo de todos os santos. Quem quer que esteja imbuído do verdadeiro espírito da vida e dos ensinamentos do Cristo visualizará Francisco ao lado do Nazareno. Pois o que Jesus ensinava e o que Sua vida exempli-fica aos homens era isto: "Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração e a teu próximo como a ti mesmo".       
       A imitação do Cristo de Francisco foi a realização deste mandamento.
       Novecentos anos antes, Sto. Antão tinha louvado o amor como, a realização final de toda a fé em Deus. Para Antão este conhecimento tinha representado o resultado coroador de qua-se cem anos de vida devota; o amor transfigurado foi a harmonia concludente na vida dum santo patriarca. Para São Francisco a devoção e a piedade tinham seu começo no amor; o amor era o acorde de abertura dum hino de mocidade.
       A princípio foi apenas uma necessidade cega. O que quer que se apresentasse, tornava-se seu objeto. O primeiro amor de S. Francisco foi devotado às alegrias do mundo; sua primeira expressão foi a louca exuberância. Contudo o entusiasmo infermentado de seu santificado amor de Deus foram gerados pela mesma força inata. Um sinal de grandeza divina mostra-se através da loucura de seu antigo amor pela vida e uma surdina de tontice transfigurada continua a invadir o amor adorante do santo de depois. Um pouco de Cristo, é o que é Francisco no circulo dos santos. Os arcos descuidados de alegria brincalhona, os anos sublimes de amadurecida santidade, ambos são glorificados pela mesma beleza. A toda a tolice e a sabedoria, a toda a dor e toda a alegria que nesta vida parecem ao ofuscado senso comum como comple-tamente destituídas de rima ou razão, são dadas pelo amor a riqueza de rima e a agudeza de significação da mais perfeita lírica de arte do trovador. Deus fez em Francisco a hora da mais pura alegria. Deus é o poeta que escreveu esta vida; Francisco o verso que a todos encanta.
       Francisco nasceu no ano de 1182; viu a luz na pequena cidade de Assis, na Úmbria; cidades e burgos começavam a diferenciar-se, como comunidades autônomas das fortalezas e castelos, das herdades e claustros. Seu pai foi o comerciante italiano Pedro Bernardone. Nessa época as cruzadas trouxeram novas fábricas de lã e seda aos mercados europeus, e o negociante de panos Bernardone acumulou considerável fortuna em muito pouco tempo. A mãe de Francisco, D. Picá, tinha todo o jovial desembaraço e o encanto cordial de sua raça. Quando Pedro Bernardone descobrira D. Picá em uma de suas frequentes viagens pela Provença, tornava-se enamorado não de sua pessoa, mas também de seu idioma, do refinamento de suas maneiras e de todas as coisas características da França meridional. O gênio da Provença determinou a educação do primogênito de Bernardone. Seu nome de batismo foi realmente João, mas seus companheiros italianos de folguedos chamavam-no Francisco, porque sua linguagem e todo o seu porte impressionavam-lhes como distintamente franceses. O apelido pegou. Ficou consagrado pela história dos santos.
       Depois de haver Francisco frequentado a escola dos monges beneditinos em Assis, seu pai levou-o para sua loja como auxiliar. Os cruzados tinham trazido de volta do Oriente não somente riquezas e toda espécie de mercadorias, mas também novos métodos de comércio: escrituração com ativos e passivos, aritmética comercial, novas unidades monetárias e sistemas de pesos e medidas. Francisco, com sua ágil compreensão, logo se sentiu à vontade em todas aquelas complicações de última moda. Mas levou consigo para a loja de seu pai um dom ainda mais valioso: o encanto agradável da França Meridional, que herdara de sua mãe. Estava sempre alerta para uma observação amigável, um sorriso atraente, uma pilhéria gozada.
       Nada havia naquele tempo no negócio do comerciante que pudesse lembrar a animação tumultuosa das modernas lojas públicas. As pessoas que entravam na loja ficavam lá muitas vezes durante horas e esperavam ser interrogadas e informadas a respeito de tudo quanto existe sob o Sol. 0 jovem Francisco de conversar, não havia nada que não o interessasse; sempre se mostrava cordial, sempre disposto para uma estória divertida; e bem cedo demonstrou ser uma aquisição extremamente proveitosa para o negócio de seu pai. Atraía novos fregueses e aque-les que haviam entrado na loja, para comprar uma mera bagatela, saíam, muitas vezes, depois de longa e deleitável conversa, com uma pesada carga de mercadorias que, de certo modo, haviam achado urgente adquirir, em troca duma bela pilhazinha de negócios, mas nunca tinha conseguido ganhar tanto como agora com seu filho trabalhando como seu caixeiro.
       Para ser um perfeito homem de negócios faltava a Francisco apenas uma coisa essencial: economia. Era habilidoso na arte de ganhar dinheiro - escreve um de seus primeiros biógrafos, Tomas de Celanomas, também irrefletido e pronto a gastá-lo de novo. Era seu amor à vida que o tornava extravagante. Só lhe importava o dinheiro pelas alegrias e belezas que podia propor-cionar. Contudo, desde o começo, quando suas extravagâncias estavam ainda completamente absorvidas pelas coisas terrenas, havia nelas já um elemento que, em forma espiritualizada, estava destinado a tornar-se um traço básico de sua santidade. Já o imprevidente filho do comerciante não conhecia maior alegria na vida do que a de dar e regalar. Estar alegre significa-va para ele dar alegria aos outros.
       Francisco não tinha, a falar com exatidão, uma aparência que impressionasse. Era pequeno e muito magro. Seu rosto oval de fronte baixa, olhos negros e lábios estreitos, não eram feios, mas bonitos também não o eram. Descreveu seu retrato sem lisonja, tal como o tinha visto no espelho dum sonho, em que apareceu como um franguinho preto. "Olhem para mim - dizia ele, fazendo troça de si mesmo - sou aquele frango, pequeno de estatura e preto!". Na aparência externa diferia um tanto desfavoravelmente de seus amigos mais bem parecidos. Mas todos eles, mesmo os mais nobres, eram facilmente postos à sombra por ele, graças ao encanto do-nairoso que emanava de sua pessoa.
       Na conversa tinha uma réplica ágil e pronta, e com suas pilhérias e inteligentes gracejos era tão pródigo quanto com suas moedas. Ninguém sabia mais canções e anedotas do que ele. "O franguinho preto" era o ideal admirado por seus amigos e pelas mais lindas moças e mulheres da cidade. Enfim, Francisco, por toda Assis, foi coroado o senhor das piadas e o rei dos banquetes de Assis. E assim vivia o futuro santo de Assis, entre risos e folguedos mundanos! . . .


Autor:Augusto de Oliveira Santos
 Fonte: Revista André Luiz, Janeiro/fevereiro-78.

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