Albino Luciani, foi eleito para o Trono de Pedro em 26 de agosto de 1978.
Logo após sua eleição foi apresentado ao mundo como o sucessor de Paulo VI, sendo João Paulo I o nome religioso adotado pelo novo Papa.
Pouco antes de sua morte, ocorrida em 29 de setembro do mesmo ano afirmara: "Um outro homem melhor do que eu poderia ter sido escolhido. Ele estava sentado bem em frente a mim na Capela Sistina. Ele virá, porque eu me vou". João Paulo I se referia ao Cardeal Karol Wojtyla, um dos integrantes do Colégio dos Cardeais. Seriam tais palavras a premonição de sua eminen-te morte e da escolha do Cardeal Wojtyla?
Na manhã do dia 29 de setembro de 1978, às 7:42 horas, a Rádio Vaticano leva ao lar a no-tícia da morte do Papa João Paulo I, cujo corpo fora encontrado em seus aposentos por um de seus secretários. Na verdade ele fora encontrado pela Irmã Vincenza que todas as manhãs, às 4:50 horas, levava uma xícara de café e a deixava diante da porta do quarto do Papa. Nesse dia, ao verificar algum tempo depois, que a xícara permanecia intocável, algo alarmada, a Irmã adentrou-se ao dormitório, abriu a cortina e deparou-se com o corpo do Papa ainda de pijama, com a face enrijecida num meio sorriso.
A notícia de que tinha sido um secretário a encontrar o corpo do Sumo Pontífice foi decidida pelo Colégio de Cardeais, pois era inadmissível que uma mulher, ainda que freira, tivesse visto o Papa de pijama.
Distante dali encontrava-se o Cardel Wojtyla, exatamente na Polônia, na cidade de Cracóvia, afastada 50 quilômetros de sua terra natal, quando a morte do Papa fôra anunciada. O motorista particular do Cardeal, ao ouvir a notícia pelo rádio embalou carreira em direção à residência do religioso na ânsia de levar-lhe a notícia.
Embrenhando-se pela cozinha afora deparou-se com uma das freiras que cuidava da cozinha e da alimentação do Cardeal que logo lhe questionou o porque da repentina euforia.
—O Papa morreu em Roma, foi a resposta apressada.
—Mas ele já morreu há um mês! – disse a freira com espanto.
—Não. Trata-se do novo.
Ato contínuo, o homem enfiou a cabeça pela janela que ligava a cozinha à sala e disparou:
—Padre, o senhor sabe que João Paulo I está morto?
O Cardeal, que nesse momento adoçava o café, deixou cair a colher e tornou-se pálido e imóvel.
Nesta narrativa transparece algo no mínimo curioso: O motorista, bem como milhões de pessoas no mundo todo, se inteiraram pelo rádio da notícia do falecimento do Sumo Pontífice bem antes que Karol Wojtyla, membro do Colégio de Cardeais do Vaticano, habitual no Palácio Apostólico onde tinha trânsito livre e devidamente investido na prerrogativa e no direito constitutivo de votar e ser votado nas mais importantes questões do Vaticano.
—————— ▐ ▐ ▐ ——————
A jornada daquele que um dia se tornaria Pontífice Católico tem início na cidade de Wadowice, na Polônia, no dia 18 de maio de 1920, quando sua mãe, Emília Wojtyla, com 36 anos de idade e de saúde frágil entrou em trabalho de parto. Havia seis anos que perdera uma filha, mas lhe restara um filho, Edmund, que tinha o apelido de "Mundek", naquela altura já rapazola, com 13 anos de idade.
Agora Emília se preparava para mais uma experiência maternal.
O marido, Tenente do Exército polonês, com 40 anos de idade era considerado pela idade inapto ao front da guerra contra o Exército Vermelho, em condições, pois, de permanecer ao lado da esposa durante os preparativos de parto.
Nesse mesmo dia, o marechal Josef Pilsudski, comandante do Exército Polonês retorna triunfante para Varsóvia, após a maior vitória sobre o Exército Vermelho na conquista da cidade ucraniana de Kiev. Os poloneses estavam orgulhosos de si mesmos e saíram às ruas para co-memorar com alegria o retorno triunfante de um dos seus líderes.
Só 59 anos depois o País teria razões para novamente sair às ruas com o mesmo sentimento de orgulho e alegria, em comemoração a novo evento; em mais um retorno triunfante de outro de seus filhos: a revisitação de Karol Wojtyla à Pátria venerada, desta vez como representante máximo da nação católica. Nesta ocasião, o orgulho e a alegria não derivaram da guerra, mas da paz.
Emília observa o recém-nascido e acolhe a certeza irremovível de que a esse filho se reservava um grande destino. O pai, Karol Wojtyla, em homenagem a si próprio dá ao filho o nome de Karol Józef Wojtyla. A mãe, com quem o filho muito se assemelhava passou a chamá-lo de "Lolek".
Enquanto o irmão mais velho, Mundek estava na escola, Emília dedicava grande parte do tempo livre ao filhinho interagindo com brincadeiras e leituras próprias à idade. Entre risos, afagos e manifestações de ternura contava-lhe histórias da Bíblia dando fisionomia e vida aos seus personagens. Tal como o marido, era profundamente religiosa e sua fé católica a levava co-mentar com os vizinhos que seu sonho era que Lolek se tornasse Padre.
Emília não escondia o orgulho pelos filhos. Edmundo, excepcionalmente inteligente, bonito e atlético cursava a Universidade em Cracóvia habilitando-se na técnica, ciência e arte da Medicina. Karol, por sua vez, frequentava escola primária onde se destacava como jogador de futebol e ótimo aluno. Da mesma forma que seus pais, Lolek se mostrava extremamente religioso, um católico devoto, talvez daí o sonho de sua mãe de vê-lo como sacerdote.
A mãe cada vez mais debilitada, sofria de dores enormes e contínuos desmaios que a retinham quase que constantemente no leito. Em abril de 1929, no dia 13, Emília, com 45 anos de idade é internada no hospital com diagnóstico de miocardite e nefrite – inflamação do cora-ção e dos rins, falecendo logo em seguida. Lolek tinha, na ocasião, 8 anos e encontrava-se na escola quando do passamento de sua mãe. Sua professora, que também era sua vizinha, en-contrando-o diz-lhe abruptamente: "Sua mãe morreu".
Silêncio absoluto. Lolek amava a mãe da maneira como só uma criança ama, e os seus sentimentos com relação a ela eram intraduzíveis por mais que se refinasse o idioma.
A morte da mãe fez estragos no garoto: perdeu a alegria de viver, tornou-se mais fechado e seu único refúgio eram os livros e as orações. Sua professora lhe notou a mudança de temperamento mas nada pode fazer. Entretanto, havia restado Edmundo a quem venerava e que se transformou em sua única fonte de alegria. O irmão mais velho tinha um amor imenso pelo mais novo. Nas férias de ambos eram vistos juntos dando dribles com uma bola encantando e simultaneamente ensinando os demais garotos na arte do futebol.
Edmundo forma-se em Medicina em 1930. Lolek juntamente com o pai vai à Cracóvia assis-tir a festa, alegria e formatura de Edmundo. Para o pai, a profissão de médico de Mundek garantiria estabilidade financeira para a família, eis que sua aposentadoria de Tenente do Exército já não os livrava de privações.
Edmundo passou a trabalhar como médico residente em um hospital na cidade de Bielsko, na Silésia, ocasião em que houve uma epidemia de escarlatina. Devotado à profissão e aos pacientes, movido por marcante simpatia, passou a noite assistindo uma jovem que lhe desper-tara especial atenção. Pouquíssimo tempo depois ele sente os sintomas da doença e perma-nece agonizante em seus últimos 4 dias de vida, findo os quais veio a falecer no dia 4 de dezembro de 1932 sem que houvesse tempo para que o pai e o irmão pudessem visita-lo. Mais uma perda enorme para o garoto; mais um pedaço da vida lhe fora arrancado; mais uma saudade para seu livro de recordações.
Na mesma tarde da morte do irmão, uma vizinha se aproxima de Lolek, solitário e perplexo e envolvendo-o em terno abraço procura consolá-lo: "Pobre Lolek, você perdeu seu irmão", ao que ele olhando para cima diz: "Foi a vontade de Deus".
Ficou decidido pelo pai que o filho, o único que lhe restara, receberia todo alimento, amor, proteção, disciplina e carinho que lhe pudesse dar, ainda que com sacrifício, sem descuidar das brincadeiras que certa feita os levaram a arrastar todos os móveis da sala do apartamento para ganhar espaço, suficiente para jogarem futebol com uma bola de pano.
Karol passou a dedicar todo tempo livre à sua nova paixão – o teatro, onde logo tornando- se líder nas produções teatrais da escola. Com o apoio de experimentado professor juntou-se a uma companhia teatral e rapidamente se transformou num astro. Ninguém, nem os professores e tampouco os alunos duvidavam que ele se tornaria um grande ator ou escritor. A felicidade voltava àquele espírito que suportou grande pressão sem partir-se.
Em maio de 1938, Wadowice recebe a visita do Arcebispo de Cracóvia, Adam Sapieha, e Karol foi incumbido de dar-lhe as boas-vindas. Leu um discurso bastante cortês, que havia preparado com antecedência. Emocionado o Arcebispo Adam estudou aquele rosto jovem, sua expressão, imponência e perguntou ao professor de religião se Karol ia entrar para o seminário. Karol pediu permissão e respondeu diretamente: "Vou estudar literatura polonesa e filologia".
—Que pena! – respondeu o Arcebispo.
No mesmo prédio que Karol habitava, morava sua amiga, Ginka Beer. No verão desse mesmo ano de1938, a jovem apareceu na porta do apartamento de Karol. Viera despedir-se dele, pois seu pai, o gerente de um banco local decidira emigrar com a família visto que a Polônia se tornara insegura para os judeus. Debalde ele e o pai tentaram demovê-la de tal ideia. Mais uma vez o garoto perdia alguém muito querido.
Uma vez terminado os estudos preliminares, Lolek e seu pai mudam-se para a cidade de Cracóvia, onde ele ingressou na universidade. No dia 1º de setembro de 1939, as bombas alemãs atingiram a cidade. A derrota da Polônia foi fulminante. Em 27 dias o País estava conquistado e, para Karol Wojtyla, a vida na Polônia sob ocupação estrangeira acabara de iniciar-se sob mau presságio.
Rapidamente os poloneses foram amordaçados; só podiam fazer e falar o que os invasores permitissem. Qualquer pessoa que não tivesse um emprego aprovado pelos alemães corria o risco de ser deportado para a Alemanha. No outono de 1940 Lolek conseguiu emprego como operário em uma pedreira administrada por uma empresa alemã de produtos químicos. Trabalhava durante 8 horas consecutivas em lugar aberto sob temperaturas de até 10 graus abaixo de zero.
As condições de trabalho eram desumanas. Karol chegou a ver um companheiro morrer com a têmpora perfurada por um fragmento de pedra. Sentiu a dor e a ira de todos os companheiros e dos familiares do morto.
Os operários, por particular razão o chamavam de "o estudante" e comentavam entre si o fato dele enfrentar o frio apenas com uma jaqueta e calças azuis, com um boné encharcado de suor.
Certo dia, ele espantou a todos quando chegou à pedreira sem a jaqueta, pálido e tiritando de frio. Havia dado seu agasalho a um pobre miserável que encontrara.
O trabalho extenuante e a falta do necessário à vida operaram transformação física em Wojtyla. Ele se curvava ao andar; a face tornou-se magra, ossuda e ainda mais carismática.
Seu pai, acamado, extremamente doente, já não reunia condições para cuidar de si pró-prio.
O dia 18 de fevereiro de 1941 se caracterizou como novo marco de perda para Karol. Ao retornar para o apartamento, no subsolo de um edifício, após comprar alguma comida e medicamentos para o pai, o encontra morto. Abraçado fortemente à garota, irmã de um amigo que o acompanhava, e em lágrimas, deixou explodir um lamento que emocionou terra e céu: "Eu não estava lá quando minha mãe morreu, não estava lá quando meu irmão morreu e não estava lá quando meu pai morreu."
A dor da separação novamente o visitava. Já vivera 21 anos incompletos mas repletos de dores e sofrimentos que jamais conseguiram abatê-lo. Estava só, irremediavelmente só, mas ainda lhe restavam os atributos dos espíritos determinados: a vontade de vencer. Não de vencer o mundo ou no mundo, mas vencer todas as dores e sobreviver a todas agonias.
Durante a noite toda, enquanto permanecia em vigília junto ao corpo do pai, voltou-se para dentro de si, em profunda reflexão e ponderou sobre o próprio destino. Os meses que se seguiram o fez se apegar ainda mais à sua fé. Em 1942, a decisão foi tomada: o Arcebispo Adam Sapieha, da cidade de Cracóvia ficou sabendo que Karol Józef Wojtyla manifestou desejo em tornar-se Padre.
Fonte de Consulta: Sua Santidade João Paulo II e a História Oculta de Nosso Tempo.
Livro (esgotado), escrito por Carl Bernstein e Marco Politi – Editora Objetiva – 6ª Edição




Nenhum comentário:
Postar um comentário