sexta-feira, 13 de agosto de 2010

MINHA FILHA, MEU SENHOR - Autor: Gérson Gomide


"Minha filha, a tua fé te salvou, vai em paz e fica curada de teu mal." (Mc. 5:34)

O versículo que ilustra este artigo é o último da narrativa de Marcos sobre o episódio da cura da hemorroíssa.

O termo “filha” aplicado por Jesus, só o foi nesta oportunidade e deixa transparecer um carinho comovedor para com aquela que, amparada e fortificada pela fé, se Lhe acerca e toca as vestes para curar-se. Esta expressão, embora usada de maneira comum na tratativa entre um homem que, na época era considerado em superioridade legal, e uma mulher, não deixa de transparecer uma ternura paternal. A mulher em referência, mais jovem que Jesus, atendia pelo provável nome de Séfora, muito embo-ra nenhum dos Evangelhos a nomeie.

Após a cura e atendendo aos dispositivos legais e imperativos religiosos de então, apresenta-se Séfora aos sacerdotes para os exames que lhe atestariam a cura, possibi-litando-lhe reintegrar-se à sociedade após a oferta do sacrifício no Templo.

Agradecida a Jesus, segue-O em suas andanças e pregações; se junta então à fila de mulheres que O acompanham e talvez até já houvesse trocado seu nome para Verônica que significa em grego "portadora da vitória", aliás bem significativo e que ser-via para coroar o final feliz de sua antiga peregrinação.

Mas nem toda felicidade ou alegria perpetua-se porquanto o ser humano ainda se ombrea ou colide com desatinos e arroubos que espelham o egoísmo e a brutalidade de seu semelhante. Para desespero de incontáveis seguidores e principalmente das mulheres - sentimentalmente mais dedicadas -, Jesus é aprisionado, julgado às pressas e convenientemente condenado à morte por crucifixão, método romano de impor agonia torturante aos já flagelados réus.

Naquela época, o condenado, sob a rigidez de sentimentos e a implacabilidade política, se submetia a encabeçar uma procissão onde seguia sob ofensas e violência da população; costumeiramente tal procissão era precedida pelo pregoeiro que se reportava ao nome do condenado, sua origem e seu crime. Jesus se sujeita a mais este martírio e exaurido por chicotadas e jejum se vê obrigado a desfilar diante da multidão omissa ou agressiva, carregando sobre os ombros a parte superior da cruz. Como de hábito, o caminho escolhido se desenhou o mais longo e ninguém ousou aliviar-Lhe a carga e mesmo aqueles que se beneficiaram de Sua bondade não se sentiram incentivados a prestar-Lhe auxílio. Quem O ajudou assim agiu por imposição da guarda ro-mana.

Transpirando suor e gotejando sangue o Cordeiro de Deus segue rumo ao Calvário e, em atingindo certo trecho do percurso surge-Lhe à frente Verônica e num gesto de profundo carinho acompanhado de meigas palavras toca-Lhe o rosto com pequeno sudário e em movimentos suaves enxuga-Lhe a dor. Transparece nos olhos e na face dessa mulher todo o amor e gratidão que desde o tempo de Séfora se lhe vai n'alma. Jesus, reconhecido pela atitude, murmura: “És abençoada”.

Depois, junto às outras mulheres Verônica se posta aos pés da cruz até a consumação. Mais à frente sob riscos de perseguições demanda as ruas relatando em cânticos sublimes a odisséia divina do Messias, exibindo aos ouvintes o sudário manchado com o sangue generoso da Criatura louvada, como ainda hoje se repete como ritual em determinada procissão.

Em certa época e atendendo por Séfora buscou energia nas vestes de Jesus para curar-se.

Em outra ocasião e sob o nome de Verônica buscou transmitir a Jesus, por meio do sudário, a energia da solidariedade e da gratidão.

Desta vez, como na primeira, alcançou o objetivo.

A grandiosidade desta mulher percorre a linha reta da perseverança e da realiza-ção, situando-se numa ponta a fé e na outra a gratidão.

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