quinta-feira, 10 de novembro de 2022

MORTE

 

MORTIS, VADE RETRO

 

 

     A morte é o fenômeno que mais se tem discutido nos tempos atuais.

 

     Sob determinado ponto de vista, desde a primeira organização da sociedade humana a morte fascina e sob outro aterroriza a humanidade.

 

     Em todas as situações é de consideração geral que a morte afronta a vida e, apartando-se os iluminados pelo conhecimento moral/religioso, a quase totalidade das pessoas a temem e a consideram ameaça constante, seja de forma inusitada, seja de forma extremada, o que justifica a preocupação e o conselho de Epicuro: “Por que ter medo da morte? Enquanto somos, a morte não existe, e quando ela passa a existir, nós deixamos de ser".

 

 Morte e vida se movimentam em caminhos de mesma natureza em atividade demarcada pelas leis naturais ou pela ação concreta do ser humano, fato este que ocasiona  retas coplanares que não se cortam e que se fundem no final da trilha. De forma natural uma respeita os limites da outra e quando o respeito cessa de forma abrupta ou inconsequente o desreito se contabiliza por ação ou omissão do ser humano.

 

       Devido ao compromisso pelo qual uma se obriga à outra e cada uma delas se obriga a ambas, passam a se configurar para o gênero humano como figuras mágicas, mas para todos resta a noção que após o nascimento, a morte é o único evento enraizado no ser humano; sua vinda é absolutamente irrevogável, intransferível e irreversível diante de prazo previamente previsto pelo Destino ou, por incrível que pareça, pela vontade de um dos representantes da espécie humana.

 

        Paradoxalmentente a morte é o ônus da vida e simultâneamente sua credora. Quando arrecadará o indivíduo e assolará familiares e amigos é não sabido e no geral sua face é incógnita para muitos, menos pelos que a esperam ou por ela estejam antecipadamente marcados. A vinda desta temida e indesejável visitante depende apenas do tempo e/ou de circunstância.

 

     Para amenizar o impacto da cessação da vida, as religiões têm como diretriz preleções, revelações, aconselhamentos, doutrinação, cultos e rituais que providenciam uma resposta para o interrogativo "Morte". Assim, antecipam ou trazem esclarecimentos para que a confiança na vida não sofra abalos.

 

    Aparentemente a morte é elemento desorganizador da cultura, da família, da sociedade e da atividade profissional. É de preferência acreditar que se constitui como roteiro natural da vida; um abalo que o tempo cuidará de ajustar, pois que sentimentos e valores absolutos sobrevivem a todas as tragédias, sejam de ordem coletiva, sejam de ordem particular, cabendo a cada um reordenar as variadas relações que sofrem com o impacto da morte. Aceitá-la, pois, não se caracteriza como síntese do conformismo, mas como elevado índice de compreensão e também como manifestação de atitudes e procedimentos que qualificam a criatura investida na posse e conhecimento da vida, suas nuanças, finalidade e limites.

 

    Para reconforto dos que ficam e conforto dos que partem, o budismo ensina que se deve cultivar sentimentos de gratidão com relação aos familiares que se foram e, simultaneamente, aprender a viver com a inevitabilidade da morte.

 

    Crer ou não na sobrevivência da alma, em Inferno, Purgatório, Céu ou Paraíso, Nirvana ou Umbral é de relativa importância; bem mais importante é o que se pratica no percurso entre nascimento e morte. Também pouco importa a extensão da vida ou com qual face a morte se apresentará, fato que leva a sensatez meditar nas palavras de Lao Tsé: "Quando tu nascestes todos sorriam, só tu choravas. Vive a vida de tal maneira que quando partires todos chorem, só tu sorrias".

 

 

 

Gérson Gomide

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