MORTIS,
VADE RETRO
A
morte é o fenômeno que mais se tem discutido nos tempos atuais.
Sob determinado ponto de vista, desde a primeira organização da
sociedade humana a morte fascina e sob outro aterroriza a humanidade.
Em todas as situações é de consideração geral que a morte afronta a vida
e, apartando-se os iluminados pelo conhecimento moral/religioso, a quase
totalidade das pessoas a temem e a consideram ameaça constante, seja de forma
inusitada, seja de forma extremada, o que justifica a preocupação e o conselho
de Epicuro: “Por que ter medo da morte? Enquanto somos, a morte não existe, e
quando ela passa a existir, nós deixamos de ser".
Morte e vida se movimentam em caminhos de
mesma natureza em atividade demarcada pelas leis naturais ou pela ação concreta
do ser humano, fato este que ocasiona retas coplanares que não se cortam e que se fundem
no final da trilha. De forma natural uma respeita os limites da outra e quando
o respeito cessa de forma abrupta ou inconsequente o desreito se contabiliza por
ação ou omissão do ser humano.
Devido ao compromisso pelo qual uma se
obriga à outra e cada uma delas se obriga a ambas, passam a se configurar para
o gênero humano como figuras mágicas, mas para todos resta a noção que após o nascimento,
a morte é o único evento enraizado no ser humano; sua vinda é absolutamente
irrevogável, intransferível e irreversível diante de prazo previamente previsto
pelo Destino ou, por incrível que pareça, pela vontade de um dos representantes
da espécie humana.
Paradoxalmentente a morte é o ônus da
vida e simultâneamente sua credora. Quando arrecadará o indivíduo e assolará
familiares e amigos é não sabido e no geral sua face é incógnita para muitos, menos
pelos que a esperam ou por ela estejam antecipadamente marcados. A vinda desta
temida e indesejável visitante depende apenas do tempo e/ou de circunstância.
Para amenizar o impacto da cessação da vida, as religiões têm como diretriz
preleções, revelações, aconselhamentos, doutrinação, cultos e rituais que
providenciam uma resposta para o interrogativo "Morte". Assim,
antecipam ou trazem esclarecimentos para que a confiança na vida não sofra
abalos.
Aparentemente a morte é elemento desorganizador da cultura, da família,
da sociedade e da atividade profissional. É de preferência acreditar que se
constitui como roteiro natural da vida; um abalo que o tempo cuidará de
ajustar, pois que sentimentos e valores absolutos sobrevivem a todas as
tragédias, sejam de ordem coletiva, sejam de ordem particular, cabendo a cada
um reordenar as variadas relações que sofrem com o impacto da morte. Aceitá-la,
pois, não se caracteriza como síntese do conformismo, mas como elevado índice
de compreensão e também como manifestação de atitudes e procedimentos que
qualificam a criatura investida na posse e conhecimento da vida, suas nuanças,
finalidade e limites.
Para reconforto dos que ficam e conforto dos que partem, o budismo
ensina que se deve cultivar sentimentos de gratidão com relação aos familiares
que se foram e, simultaneamente, aprender a viver com a inevitabilidade da
morte.
Crer ou não na sobrevivência da alma, em Inferno, Purgatório, Céu ou Paraíso,
Nirvana ou Umbral é de relativa importância; bem mais importante é o que se
pratica no percurso entre nascimento e morte. Também pouco importa a extensão
da vida ou com qual face a morte se apresentará, fato que leva a sensatez
meditar nas palavras de Lao Tsé: "Quando tu nascestes todos sorriam, só tu
choravas. Vive a vida de tal maneira que quando partires todos chorem, só tu
sorrias".
Gérson Gomide
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