PERFUME DE MÃE
Naquele segundo domingo do mês de maio, Nena quedava-se pensativa,
acomodada num dos bancos da Igreja, onde assistia a reunião especial em louvor
ao dia das mães. Casada há cinco anos não conseguira até então gerar um filho e
tampouco reunia condições financeiras para o tratamento médico que lhe tornasse
possível a realização do sonho.
Vivia acabrunhada por se
considerar órfã de filhos e, especificamente naquele dia, dirigiu-se à Igreja,
não propriamente para se afeiçoar fraternamente às mães que ali se encontravam
ou para se consolar. Para ali viera muito mais para alimentar sua dor, posto
nutrir pequena inveja das mães novas e das encanecidas, todas elas naquele
ambiente e momento sensibilizadas pela data, orgulhosas e radiantes da maternidade.
Ao final da reunião, o sacerdote acompanhado de duas auxiliares,
percorre o amplo salão distribuindo um botão de rosa para cada mulher . Quando
chegou sua vez, Nena recusou receber a flor, lamentando: “Eu não sou mãe”.
O sacerdote delicadamente insistiu, mas mesmo assim Nena não fez
por acolher a sua generosidade. Ainda pacientemente ele lhe recomenda: “Quando
findar a homenagem, irmã, ainda não vá embora. Aguarde, gostaria de lhe falar”.
Talvez antevendo a oportunidade de extravasar a autopiedade ou
revolta decidiu-se por ficar.
Finda a comemoração, o pároco aproximou-se e com brandura censurou
a amargura que sabotava aquela alma. Explicou que a mulher já nasce mãe e que
não é preciso, pois, tornar-se. Já nas bonecas e nos cuidados com irmãos, pais,
avós, parentes e mesmo com o marido, a mulher menina ou adulta revela o
sentimento maternal. “Filhos, minha irmã, existem muitos, o que falta no
mercado é mãe. Hoje você não desejou ser mãe, não almejou sentir-se mãe na
humilde reverência que fizemos e, creia, ainda assim você deve aceitar o botão
de rosa que lhe trago, ele representa a gratidão de uma jovem muito especial
que eternizou um dia para ser o das mães. Este botão de rosa é abençoado e traz
o perfume de Maria; aliás, quem solenizou um dia em especial como sendo o das
mães chamava-se Ana, o mesmo nome da mãe de Maria de Nazaré”.
Nena engoliu o pranto, sacudiu o inconformismo e mansamente disse:
“Obrigada, eu aceito suas palavras e o botão de rosa”.
Um ano depois e mais uma vez no segundo domingo de maio, Nena
retorna à mesma Igreja que passara a frequentar com regularidade em meio aos
demais frequentadores. Nesse dia especial, desejava, entre as mães novas e
antigas, receber um botão de rosa. Desta vez estava sorridente, prenunciando
imensa alegria.
Quando chegou sua vez de receber a flor, o sacerdote gracejou:
“Com ou sem espinhos”? “Com sua bênção; apenas com ela”, foi a resposta.
Ele comoveu-se e ainda observou: “Vejo que você se faz acompanhar
de um garotinho”.
“Sim, ele estava sozinho, abandonado à sua dor e então eu o adotei
como filho do coração. E ele está muito feliz porque ganhou uma mãe e também
porque em breve ganhará o irmão que carrego comigo”.
O padre sorri e lhe ofertou outro botão de rosa; talvez o mais
belo e perfumado dentre todos os botões de rosas até então ofertados.
Gérson Gomide
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