Importa a segurança em refazer caminhos mal percorridos.
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Segundo relato do livro “Nosso Lar”, André Luiz inadvertidamente reduziu seu plano de vida, que o levou à equiparação a suicidas. Vitimado pelo câncer intestinal prostrou-se também pela sífilis que por si só não lhe seria fatal; teve, ainda, dias subtraídos pelos desatinos da cólera, pelos maus tratos e más palavras com os semelhantes; pela deterioração abusiva das funções do fígado e rins, ficando “com todo aparelho gástrico destruído à custa de excessos de alimentação e bebidas alcoólicas, aparentemente sem importância”.
Mas isto, apenas isto não justifica o tormento que por anos foi compelido suportar: “as grades escuras do horror”, “o medo terrível”, “as formas diabólicas, rostos alvares, expressões animalescas”, o medo, o pavor das trevas, seres monstruosos, além da fome, sede; os caminhos ermos e escuros invadidos de quando em quando por seres perversos, reboando ao derredor a acusação: “Suicida! Suicida! Criminoso! Infame!” Todos esses deslizes de André Luiz no hábito alimentar e comportamental são transgressões que nós outros, com maior ou menor intensidade, praticamos no dia-a-dia. Talvez isso nos leve crer que o futuro na Dimensão Espiritual não nos será nada repousante; muito pelo contrário! Entretanto, é bom lembrar que existem situações, intenções e personagens e que os conceitos divinos diferem, e muito, dos nossos.
Sem dúvida e sem desdouro ao personagem nomeado, as suas faltas são maiores, bem maiores que aquelas relatadas no livro. Devemos atentar, entrementes, que a intenção principal da obra é colocar em termos inteligíveis o Mundo Espiritual e a sua interligação ao Mundo Físico, jamais propositando desnudar os desatinos e transgressões do retratado; as menções a determinadas situações e atitudes devem-se exclusivamente ao dever de emprestar maior impacto emocional ao relato, chamando os leitores à reflexão. Ademais, não importa se o passado de André Luiz foi extrema ou razoavelmente delituoso. Isto em nada lhe decresce o valor pessoal, mesmo porque João Batista - dos nascidos de mulher, o maior - sob as vestes do profeta Elias planejou e executou pela espada cerca de 400 sacerdotes de Baal; mesmo porque Paulo de Tarso - o vaso fiel, o valoroso e mais corajoso discípulo de Jesus, assinando Saulo de Tarso, de farisaico proceder - entre tantos desatinos e perseguições condenou Jesiel (Estevão, o primeiro mártir cristão) à lapidação; mesmo porque Madalena - o anjo dos leprosos - antes de sê-lo repartiu a vida e o leito com os poderosos. Citamos apenas estes 3 personagens evangélicos para dar força às nossas palavras: os débitos podem ser ressarcidos e quitados quando se remodelam as atitudes em relação ao semelhante. Ninguém é obrigado à caridade; ela é um dever reconhecido pela alma que já descortinou em si o caminho da redenção. Outrossim, os que muito erram quando se convertem pelo esforço e conscientização tornam-se altamente confiáveis, porque já sabem distinguir entre o certo e o errado, tendo, pois, enormes possibilidades de agir de forma absolutamente correta.
Como percebemos pelas páginas do livro “Nosso Lar”, até o ingresso à Colônia que emprestou nome ao livro, André Luiz foi um Espírito de pequena estatura, mas dúvida também não pode nos assolar de que já atingiu a maioridade graças ao próprio esforço e determinação que hoje lhe aureolam a fronte com as virtudes amplamente reconhecidas por todos. A emancipação espiritual, entretanto, ele a obterá pelos caminhos terrenos, exercitando aqui entre os passantes encarnados, todo o aprendizado de Nosso Lar e Adjacências.
Autor: Gérson Gomide
Nota: Todas as citações entre aspas pertencem à obra.
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