Um dia dormi (aliás, eu durmo todos os dias, ou mlhor, todas as noites) e sonhei que estava num escritório de corretagem. Até aí nada demais. Acontece que não era um escritório comum, tampouco o era a corretagem e essa conclusão cheguei quando resolvi fazer algumas perguntas.
Observei que os motivos de decoração despertavam atenção para o desabrochar da vida, ou melhor entendendo, para o nascimento, e assim meus olhos pousaram num quadro enorme que retratava soberba maternidade animada por médicos, enfermeiros e bebês. Sobre um aparador divisei pequenino berço a enfeitá-lo; enfim, todos os adornos se referiam à criança. Mas o que realmente me chamou a atenção foi uma certidão de nascimento muito bem emoldurada. Não consegui ler o nome registrado e até hoje desconheço se se tratava de alguém importante, mesmo porque de pronto entendi que importante era a certidão em si.
Sem permitir que a curiosidade repousasse continuei dando tratos à imaginação buscando entender onde me encontrava e sem paciência para aguardar que alguém se antecipasse, perguntei a quem me quisesse responder:
- Que espécie de escritório é este?
- Um senhor de aparência comum aproximou-se e sentenciou:
- Você não é daqui!
- Embora não saiba onde estou, não sou, respondi.
- Muito bem! Você está no Além e este local é um escritório especial de corretagem. Anotamos o desejo de cada um com relação a predicados (ou vantagens) pessoais e profissão que gostariam de exercer na próxima vida e encaminhamos o pedido ao Serviço Geral de Reencarnação onde as pretensões são submetidas aos técnicos. É verdade que elaboramos preliminarmente refletida avaliação de direitos do postulante e após o aval competente acompanhamos o processo de princípio ao fim.
- E vocês obtêm sucesso?
- Na maioria das vezes, não. As pessoas pedem mais do que merecem.
- Poderia citar os três predicados ou vantagens mais solicitados?
- Sem que a ordem de preferência seja exatamente esta, solicita-se muito a beleza, a fortuna e o poder. E alguns mais ambiciosos subscrevem os três pedidos de uma só tacada.
- Quem os pede?
- A beleza, geralmente as mulheres se bem que a lista de homens interessados já seja muito expressiva; a fortuna, ao inverso, a maioria é de homens, mas as mulheres já compõem um número significativo; e com relação ao poder, este é disputado por homens e mulheres quase que em igualdade numérica.
- Por que tais solicitações?
Porque cada um – na verdade todos - deseja transitar pela vida como se fosse o principal ator em soberba peça que sequer deve insinuar decepções, frustrações, preocupações, doenças; enfim, uma história feliz de princípio ao fim. É por isso que solicitam aquilo que julgam ideal para uma vivência feliz. Na realidade todos desejam tudo; entretanto, ousam solicitar apenas aquilo que bem manipulado poderá levá-los a obter o todo, senão vejamos: A beleza manipulada friamente atrai a fortuna e esta eleva seu possuidor ao poder. A fortuna torna o feio belo e sob reverências e bajulação o esperto manipula os admiradores e consegue alçar-se ao poder. E, finalmente, o poder, proporciona fortuna, não importa a maneira pela qual, e estes dois se tornam irresistíveis para atrair a beleza interesseira, da qual o poderoso se serve sem qualquer pudor ou acanhamento.
- Então...
- Sim, todos desejam a beleza, fortuna e poder ao mesmo tempo.
- E profissionalmente, também há escolhas?
- Já o disse que sim e você não ficará surpreso com as preferências. Mostro-lhe, a seguir, a tabela de valores cobrados para cada profissão.
- Vocês cobram?
- Sim, este é um escritório de corretagem e vivemos de comissão.
Ato contínuo levou-me para outra sala, onde um grande painel se referia às profissões e aos valores cobrados. Anotei alguns itens que julguei interessantes, não com relação à profissão, mas ao valor da comissão. Ei-los:
TABELA DE VALORES POR PROFISSÃO
MÍNIMO 2 HS MÁXIMO 20.000 HS
ÁRBITRO DE TODA ESPÉCIE
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1.000 HS.
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GOVERNANTE PÚBLICO
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50 HS.
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MÉDICO
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DE 20 a 18.000 HS.
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POLÍTICOS
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DE 2 a 10 HS.
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RELIGIOSO
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DE 1 a 20.000 HS
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DONA DE CASA
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DE 100 a 18.000 HS.
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ADVOGADO
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DE 20 A 500 HS.
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LIXEIRO
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20.000 HS.
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COVEIRO
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20.000 HS
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Fiquei surpreso e pedi explicações com referência aos valores cobrados, como seria cobrado e que moeda era o “HS”.
Pacientemente o responsável explicou-me:
- O “HS”. É a moeda usada entre nós e literalmente se expressa em “Horas de Serviço”, cujos valores devem ser pagos em forma de caridade quando o indivíduo, reencarnado, estiver exercendo a profissão solicitada. Quanto aos valores, você verá que não existe disparidade ou privilégios, senão vejamos:
Cobra-se pelo diploma de árbitro apenas 1.000 HS, porque todo árbitro segue a instrução dos Códigos ou do Manual; entretanto, por vezes diversas, alguns decidem movidos pelo humor; muitos pelo senso da Justiça e da consciência; outros pela preferência; outros, ainda, não se importam com o julgamento sereno e justo e muito menos consideram o “não julgueis”. Segundo o próprio juízo são soberanos e importantes em suas atividades e não têm muito tempo para o “HS”.
- À prerrogativa de Governantes Públicos - políticos ou não - cobramos apenas 50 HS já sabendo de antemão que o pagamento vai ficar apenas na promessa.
- O certificado de médico vai para a faixa progressiva; se ávido paga pouco; se verdadeiro discípulo, paga muito. Pouquíssimos situam-se em faixa elevada de contribuição; alguns não recolhem nada e outros, que pouco pagam, têm por hábito a sonegação.
- O privilégio de ser político (sim, privilégio porque a profissão não requer experiência ou cultura) custa apenas de 2 HS a 10 HS, valores por eles considerados altos. Talvez logo, logo esta faixa profissional entre em promoção para 1 HS somente. Estes profissionais são os menos taxados e os que mais nos devem.
- Os religiosos, e aqui são relacionados os padres, pastores, monges, sacerdotes, dirigentes espíritas, enfim todos os líderes espirituais, têm faixa de valores variáveis que vai do mínimo ao máximo, independentemente do credo que professem. Sem dúvida são os mais difíceis. Alegam proteção de Deus; apadrinhamento de Cristo, etc., etc. Alguns se dizem caridosos ao extremo e realmente o são, só que mediante aplausos ou usando os recursos fornecidos pelo alheio. A grande maioria quer sua Casa, Templo ou Igreja lotados; solicitam velada ou descaradamente maior número de adeptos para melhor arrecadarem recursos. Uns poucos pagam religiosamente a cota máxima e ainda nos dão bonificações.
À dona de casa também se costuma cobrar pela tabela progressiva de 20 HS a 18.000 HS. É uma profissão em vias de extinção porque se prima na atualidade mais pela remuneração a terceiros do que na espontaneidade dos afazeres. Em dias atuais, a dona de casa trabalha 1/20 em relação a idos não muito distantes. Antes um lar era uma pequena indústria onde se produzia quase tudo, do sabão ao doce, passando pelas roupas e utensílios. Hoje é um pólo consumista, apenas. Mas existem muitas donas de casa que contribuem na cota máxima; entretanto, escasseiam ano a ano.
O advogado geralmente não paga e ainda nos ameaça com ações ou mandado de segurança. Alguns, entretanto, chegam a se aproximar da cota máxima. São os que dão assistência gratuita.
Agora chegamos ao lixeiro - cota máxima, sem privilégios. Pode parecer injusta esta taxação, mas poucos pleiteiam esta função e os que dela se valem para manter sua família, o fazem sorrindo, cantando, bem-humorados; não chutam o saco de lixo e nem maltratam quem os sobrecarrega de serviço, o que é pouco comum profissionalmente. Julgamos que são felizes por trabalhar e que não se preocupam se todos os outros desejam o doutorado. Em sinal de respeito e gratidão, respeitosamente os abraçamos.
Finalmente, o coveiro. Este também não tem colher de chá, paga pelo maior. Tal como seu parceiro acima é um personagem importante em nossas vidas a quem entregamos o corpo para que o abrigue na última morada. É um profissional diferente. Lida com a morte e os mortos para sobreviver. Ele, mais do que ninguém sabe que daqui, de palpável, nada se leva. É nosso amigo pessoal por quem intercedemos freqüentemente, movidos pelo reconhecimento. Diz ele em tom de humor que entre saudáveis, feridos e mortos os enterrará a todos. É um forte! Louvado seja!
Interrompi-o:
- Mas todos pagam?
- O lixeiro e o coveiro, pontual e integralmente. Os demais, alguns são espontâneos, outros atrasam, uns reclamam, outros se superam. Mas boa parte usa outro recurso que não o HS.
- Qual?
- O "OS", ou seja, o Oras o Serviço. Os que se valem dessa forma deixam o pagamento muito adiante do esquecimento. Só que aqui, quem deve paga mais cedo ou mais tarde, espontânea ou forçadamente.
- Você pode ver que ao inverso do preceito evangélico, entre nós, a quem pouco foi dado muito é pedido porque só este pelas duras experiências, pelo determinismo, pela coragem, pelo espírito de fraternidade, pela dignidade, pela retidão e honestidade é que sabe responder ao comando do Amor.
Acordei!!!
Assustado revi mentalmente as cenas e perguntei-me: Teria sido um sonho? Não respondi, não consegui responder mas imediatamente analisei minha profissão e comecei a por em dia o pagamento a que provavelmente me havia comprometido.
Publicado na Revista Aurora/Abril 2003
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