sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

COMPASSO DA VIDA - Autor: Gérson Gomide

Por que as pessoas não conseguem abeirar-se da felicidade?
Por que são infelizes?
Por que os casamentos fracassam, as mulheres se frustram no lar e são, embora recusem admitir, manipuladas fora dele?
Por que os homens procuram uma forma ou fórmula para se auto-afirmarem, na pretensão de ocultar sua impotência diante do irrealizável?
Por que os pais já não controlam os filhos e por que os filhos não mais se comportam como tais?
Por que se buscam especialistas em psiquismo em longas sessões de análise, quando cada qual teria capacidade para resolver seus problemas se não estivesse encrencado com a vida e consigo mesmo?
Por que, enfim, tantas perguntas se as sabemos provisoriamente sem respostas, de vez que o homem mundano desligou-se do passado e não se preocupa com o futuro?
Para boa parte da humanidade o que importa é o momento atual com suas alegrias e sensações. São muitos os que procuram a felicidade por descaminhos íngremes, ásperos e escapistas sem se dar conta de que ela não circula no entreposto do desvario.
Tudo ou quase tudo que está estigmatizado a não dar certo, assim se configura pela falta de expectativa. Sim expectativa que é esperança, baseada em supostos direitos, em promessas ou probabilidades. O homem e a mulher de hoje não esperam acontecer - fazem acontecer e é exatamente neste ponto que as coisas começam a falhar e tornar o projeto inviável porque sem obediência aos trâmites naturais.
Não se deve suspirar no saudosismo para dizer que os tempos de hoje são piores que os de antanho, ainda porque o saudosista está parado no tempo; entrementes, comparações são forçadas à vista do comportamento daqueles que animam o momento presente com suas ações, reações, maneira e jeito de ser ou de esquivar-se. Mas, para simples ilustração, recuemos no tempo e nos defrontemos com o comportamento de época não muito distante. Todos, sem exceção passavam por três períodos de vivência: o infantil, o juvenil e o adulto. Hoje o mundo só tem dois estágios - o infantil e o adulto e passa-se de um para outro com grande facilidade, ora se é criança, ora adulto e por desajustada opção sempre na contramão. O elo de ligação se perdeu por falta de uso e costume e um dos melhores momentos da mocidade ficou entregue ao ostracismo.
Em idos outros, quando o rapaz e a moça pretendiam-se pela simpatia, refletiam a expectati-va de namoro; mais tarde esse relacionamento tornava-se pré-matrimonial através do noivado; mais adiante, o sonho realizado através do casamento e, finalmente, a da vivência a dois. Não se fazia o momento, porque era este que fazia o indivíduo, descobrindo-se-lhe todas as possibilidades de bem-estar que a vida pode proporcionar já nas pequenas coisas. Na atualidade, namoro já não é mais namoro; casamento é experiência que se fixa muito mais na somatória de problemas e recalques e muito menos na construção de destinos e família. O casal que, no encantamento sensual proporciona publicamente espetáculos de lubricidade é o mesmo que com o tempo e convívio passa a dar-se as costas, farto um do outro, exauridos em parcos sentimentos. Tudo redondinho, redondinho rolando ladeira abaixo!
É na constituição da família que se ergue toda a estrutura do futuro. Casamento mal planeja-do decorrente de um caso mal começado, não pode chegar a bom termo e o resultado de tal união pode não ser grande coisa. Os transeuntes de hoje não sabem aguardar os encaixes da vida. Falta-lhes expectativa porque julgam não depender de ninguém para nada e nesse ritmo desafinado o pai esgota suas possibilidades paternais, a mãe perde os seus dotes de rainha do lar, o filho desconhece a distância respeitosa entre ele e os genitores; enfim, o homem se cansa de ser homem, a mulher se estafa em ser a rainha do lar e a busca dos sentidos é eleita como meta principal. Que importam padrões primevos de comportamento? A ordem é viciar-se: beber, fumar, sensualizar e excursionar nas drogas, ressalvando-se, é evidente, as exceções que amenizam esta trágica realidade.
Não se é feliz porque falta propriedade e condição nobres no presente e expectativa no futuro, sobrando na outra ponta disputas acirradas e derrotas acachapantes.
Felicidade ou infelicidade não são apenas estado de espírito, mas situação permanente de bem-estar de quem está contente consigo, com seu semelhante, com seus recursos e com a família.
A vida é uma grande e afinada orquestra e o momento que ora vivemos é o da fermata - a parada do compasso musical que pode ser longa ou curta, dependendo de cada um se descobrir como é, sem ocultar defeitos e virtudes, sem se esconder jamais de si próprio.

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