sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

CONFESSO - Autor: Gérson Gomide

Confesso que, amparado pelos ensinamentos paternos e pela orientação religiosa recebida no período delimitado de meus primeiros anos de existência e consciente da realidade mundana, de suas conquistas, derrotas, alegrias e percalços e portador de uma particularidade desenvolvida nos mistérios da fé e das coisas religiosas, desenvolvi ainda jovem um estilo de prece que, no vigor do entusiasmo juvenil julgava a ideal para modificar ou renovar o mundo, e ela assim se resumia: "Senhor, dai-me condição de mudar o mundo para que as pessoas possam sorrir permanentemente, permita-me ajudá-las a atingir seus ideais, dai-me o privilégio de realizar seus sonhos, transformando-os em realidade."
Confesso que, já adulto e razoavelmente experiente, encaixado na realidade psíquica, emocional e comportamental, passível de manifestar-se nos âmbitos individual e coletivo, percebi que não conseguiria mudar o mundo e tampouco as pessoas que o animavam e então mudei minha prece, achando-a mais objetiva por assim se expressar: "Senhor, dai-me força para mudar a vida e os ideais daqueles que se encontram em meu circuito, sejam parentes, amigos, colegas ou simples serviçais; que eu possa ser a esperança e a realização de seus desejos, trazendo-lhes alegria e felicidade." Entretanto, cedo descobri que não conseguiria, como não consegui, agradar a todos e que decepções e mágoas afloraram em seus corações sem que eu nada pudesse fazer. Para algumas dessas lágrimas, sem dúvida, eu contribuí.
Confesso que até então não havia descoberto que as preces tomam o rumo de nossas realizações e hoje, pelo simples fato de ter uma realidade alicerçada em experiências de longos anos, concluí que muita prece havia proferido e muito pouco realizado, restando-me, então, a certeza que se tivesse solicitado a graça de mudar a mim mesmo não lamentaria o tempo perdido com tais preces, balbuciadas sem nenhuma ação, atitude ou obra que resultasse algum benefício, em particular.
Confesso finalmente, que à força de minhas orações, descobri que Deus não nos colocou aqui para salvar o mundo ou a humanidade. Ficou bem claro para mim que o meu compromisso é comigo mesmo e que tudo o que faça para tornar-me calmo, para abrandar as palavras e serenar os pensamentos, transbordará até aqueles que são alcançados pelos meus gestos, palavras, pensamentos e afeição. Hoje penso nas maravilhas do mundo e repito sempre, sempre que o mundo não precisa de mudanças ou de reformas, pois que perfeito na essência e no formato; que o ser humano, bem como todos os demais seres não precisam de constantes interferências ou ingerências para progredir; eles, como eu e você, viemos para aprender por métodos próprios que as mudanças em nosso mundo e em nós são naturais e regidas por Leis Soberanas; que nossas aquisições – saudáveis ou doloridas – são conquistas ou necessidades da Alma.
Desta forma, mudei a mim e por extensão o meu mundo. E confesso que o mais belo de tudo isso é descobrir como permanecer vivo, a aprender a viver e que esta é a melhor maneira de continuar a jornada: cuidando de minha vida e servindo, talvez, de exemplo aos que me observam.

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