domingo, 27 de setembro de 2009

CARTA PARA MINHA FILHA


Minha querida filha,

Talvez quando alguns anos já houverem se escoado na ampulheta, você tome deste manuscrito e deixe os olhos sobre ele correrem sentindo-lhe as palavras e identificando em cada uma o profundo sentimento que nos une. Sei que jamais julgará esta expressão de ternura como superficialidade emocional que hoje me embala os sonhos e esperanças com relação a você.

Saiba, minha pequena, que a sua vinda aos meus braços foi uma opção consciente e talvez mais que isso, uma luta e uma vitória. Planejamos os nossos filhos, mas é Deus quem determina quais as pérolas que serão engastadas no colar de ventura que haveremos de ostentar como o maior tesouro jamais avaliado por alguém.

Hoje, pequena e indefesa, no aconchego dos meus braços, com a cabeça repousada no meu peito, sente-me o coração bater em harmônica pulsação e sob o efeito desse ritmo entrega-se ao repouso e à paz reservada aos anjos. Amanhã me sentirá o pulsar do coração nas palavras de preocupação, nos conselhos oportunos e na envolvente mensagem do meu olhar. Creia, minha filha, que em todos os momentos serei o pai em quem você pode e deve confiar e que em todos os instantes de sua vida, seja sob que teto for, estarei ao seu lado para defendê-la, apoiá-la e compreendê-la.

Sei que não poderei evitar-lhe a lágrima que em alguns momentos, por um ou outro motivo lhe incomodará; entretanto, saiba que ela tem 3 especialidades distintas para a mulher: desarrumar a maquiagem, banhar o coração e dar têmpera ao espírito. Risos, e quando a vida neles se sustenta torna-se frágil e inconformada diante dos entreveros próprios ao ser humano. Não podemos apenas lamentar a desarrumação de nossa aparência, de nossas coisas e de nossos afetos. Temos que entregar a alma à candura da compreensão para que assim, em equilíbrio, possamos refazer o que se danificou. As lágrimas escoadas do coração revelam riqueza de emoções e de sentimentos. Todas as dores, é natural, nos levam à lágrima, mas aprenda a fazer com que ela amenize o sofrimento e para isso não alimente mágoas infindas ou vinganças inconseqüentes. A força está em superar a angústia e não em devolver ou sucumbir à agressão. Aprenda conjugar o verbo perdoar para não ouvir vozes de arrependimento a ecoar-lhe na consciência.

Diante do prejuízo material ou sentimental que possa sofrer ou propiciar, escolha a primeira alternativa, não permitindo jamais que sua atitude provoque dor e desilusão em outrem.

Desde o princípio fomos talhados para o sorriso e para mim os instantes em que lhe provoco essa sensação de alegria faz-me perceber, na experiência que me imprime ritmo à vida, que a lágrima pode embaçar os olhos nunca o espírito.

Cuide bem de seu patrimônio moral e deixe-o como herança aos seus rebentos para que este País possa, no futuro, espelhar o reflexo do respeito, da educação e da dignidade.

Saiba que lhe tenho profundo amor e consideração e por essa razão não me importarei com o juízo grosseiro que eventualmente lhe possam fazer e tenha em mente esta certeza: Em todos os momentos de minha vida serei um verdadeiro pai na singeleza dos pensamentos, na doçura do coração, na amplidão da alma, na eternidade do tempo.

Para finalizar, lhe quero esclarecer que a paz de consciência é o resumo ou o prefácio da felicidade e que ela se compõe de pequenos elementos que crescem e se agregam na medida em que crescemos em dignidade, justiça e bondade. É uma conquista eterna que não se amedronta diante das dificuldades, que não esmaece frente a lutas, que não se imobiliza na senilidade, que não se sepulta na morte.

Um beijo, este é o mais simples, entretanto, o mais envolvente gesto que disponho neste instante para expressar a ternura por tê-la por filha querida.

Autor: Gérson Gomide

(Obs.: Escrito para minha filha Fernanda).

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