EM LINHAS GERAIS
Não sabemos em detalhes como funciona a Misericórdia Divina, mas aquele que possui alguma cultura religiosa já acumula condições para deduzir que ela se realiza, em muitas circunstâncias, através do próprio homem. Quem já não ouviu a sabedoria popular assim se expressar: "Deus escreve certo por linhas tortas?" (as linhas tortas somos nós). Tem ainda outra sentença e nesta a sabedoria é evangélica: "o escândalo virá, mais ai daquele que o propiciar". Em ambas as situações, somos nós os intermediários na realização de desígnios que nortearão (ou desnortearão) a senda de alguém em especial. Entretanto, para agir em consonância à Misericórdia Divina, necessário se faz entender o significado da vida.
Se não se sabe porque ou para que se vive, o indivíduo está perfeitamente encaixado no verso final do poeta Francisco Otaviano: "...só passou pela vida, não viveu." Ou então, na blague do humorista: "... veio ver se servia e não serviu".
Hoje vivemos as consequências desta mesma vida ou mesmo de pretéritas, cuja consequência se inscreve também como Lei de Causa e Efeito que por sua vez se refunde na Lei do Carma ou Karma; porém, nada está afeito ao determinismo da Lei de Talião do "olho por olho, dente por dente". Em outras palavras, quem fez tem que pagar na mesma moeda, no mesmo valor. Não, a Misericórdia Divina segue por outros caminhos e permite que um devedor de grande envergadura já de posse de algum esclarecimento espiritual não viva como castigo os mesmos tormentos que houvera infringido a outrem, mas ajudando os que vivem em situação similar ao agredido.
Os campos de concentração do regime nazista foram, no século passado, a síntese da dor e do sofrimento. Esse reduto de amargura infinda foi um escândalo na conceituação espiritual. Os reclusos, alguns pelo arbítrio, outros pelo simples mecanismo cármico e ainda outros por imposição expiatória, deveriam passar pela experiência que se descortinou à sua frente. Muitos traziam como currículo um pretérito tenebroso; outros, relativa experiência de vida em sociedade e alguns o dever missionário de amparo. O escândalo veio para todos e ninguém se isentou de tormentos e preocupações. Todos lamentaram a perda de entes queridos. Certamente houve quem perdesse a própria individualidade. Seguramente ressurgiu novamente nos mais inconformados o desejo de vingança que atravessaria o século e por outro ainda avança até que o ódio possa mudar de forma, ensejando espaço ao armistício, à reconciliação, ao perdão, permitindo que a compreensão passe a direcionar o coração no comando de pensamentos, palavras e atitudes.
O escândalo veio, mas ai dos que o arquitetaram. Será que sua próxima experiência de vida estará sujeita ao mesmo rigor pelo qual eles submeteram seus prisioneiros, não de guerra, mas de preconceito e ódio gratuitos? Não cremos! Seria a Lei de Talião e para ela não há lugar na Legislação Divina. Entendemos que o "quem com ferro fere com ferro ferido será" é um chamamento à responsabilidade ao mesmo tempo que aviso baseados nas leis mosaicas, muito respeitadas e defendidas na ocasião, ou seja, nenhuma falta que resulte em prejuízo para alguém ou para algo será desconsiderada por Deus. O pagamento será de acordo com as posses de cada um. A cobrança, entretanto, será radical se o devedor resistir com obstinação a tal pagamento. Aí, sim, o ferimento do agressor será com a mesma arma com que feriu. Poderíamos para melhor entendimento colocar: "quem machuca alguém, sairá machucado", é a consequência. Mas, a Doutrina Espírita veio esclarecer que o ser humano pode sempre e sempre quitar as pendências cármicas amontoadas em trajetos umbrosos usando os bônus da generosidade, aplicando para tanto os talentos que misericordiosamente lhes são ofertados, propiciando mesmo condições de sobrevivência para alguém, até mesmo para o próprio agredido que retorna ao lar do agressor como companheiro(a), filho-problema ou deficiente...
Viktor Emanuel Frankl, neurologista e psiquiatra austríaco, criador da Logoterapia, novo método na escola da psicoterapia, extraiu grande parte de seu conhecimento psicoterapêutico observando os reclusos nos campos de concentração nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Percebeu que alguns reclusos repartiam sua ração com os que se abeiravam da morte, dando-lhes condições de sobrevida por mais ínfima que fosse; já outros furtavam a ração dos agonizantes sob o argumento de que não adiantava o alimento se estavam à beira da morte; uns ocupavam-se em consolar os mais extenuados mental, psíquica e espiritualmente, enquanto outros desprezavam princípios morais e o sentido da solidariedade, rebaixando-se ao nível animal onde apenas o seu direito de sobrevivência deveria prevalecer. De si para si perguntava o psiquiatra: "Que força alimentava alguns e faltava a outros, mesmo porque todos viviam sob as mesmas condições e tormentos?" Dizemos: a dignidade, o determinismo, a solidariedade, o amor na sua feição mais básica: primeiro o próximo, depois ele próprio.
Até que ponto as influências ambientais podem alterar o comportamento do indivíduo. Ou elas apenas revelam o verdadeiro caráter? Será que as imposições biológicas e sociais condicionam ou remetem o ser humano a lutar pela própria sobrevivência, seja com que armas forem? Justifica-se o furto nos campos de concentração, nos redutos miseráveis ou os assaltos nas ruas de hoje. Se se encontra uma justificativa ou desculpa para que alguém tire de alguém o seu salário ou a sua cota de ração e de vida, por que a História está pautada de heróis e mártires que não titubearam renunciar aos bens terrenos e a própria vida em benefício de um povo, de uma causa, de uma ideia social? Estes descobriram o significado da vida e entenderam que a Misericórdia Divina tem a dimensão dos ideais quando estes refletem a justiça social que, por si só, acolhe todos os direitos do cidadão, desde o nascimento até o decesso.
No decorrer de suas pesquisas, Frankl concluiu que a grande luta do ser humano é por encontrar um sentido para a vida. E se a vida tem um sentido, existe também sentido no sofrimento. Daí a razão de muitos dos que sofrem ou que não obtém o que almejam se expressem em letras garrafais: SOFRO, e muitos dos que passam por situações aflitivas sempre encontram argumentos para consolar os que não se conformam com a situação. Tanto um como outro sofre, só que o primeiro se revolta com seu sofrimento, ao passo que o segundo o compreende.
Observando a reação dos prisioneiros e ouvindo as preocupações manifestadas nos diálogos entre eles, Viktor Frankl concluiu que aquelas pessoas estavam sob condições especiais e que nenhuma importância tinha determinar se o sinal de uma falta de equilíbrio, de um complexo ou trauma os induzia a reagir de forma negativa. Também baseado em suas observações durante os anos de guerra, Viktor conta que a sobrevivência com dignidade de alguns companheiros devia-se ao forte sentido que possuíam para a própria vida, honrando-a com atitudes solidárias, consolando os fracos e dividindo o alimento com os mais esfomeados. Quase todos os prisioneiros tinham esperanças de sobrevivência, de liberdade e cada qual agia exatamente de acordo com suas aquisições morais, psíquicas e espirituais.
A Misericórdia Divina jamais esteve ausente dos campos de concentração, como está presente em todos os momentos de nossa vivência. Deus busca consolar cada um e todos, mas muitos estão ocupados em lamentar a própria sorte. Os inconformados dos campos de concentração espalhados pelo planeta não têm palavras de consolo para seus companheiros e por eles não querem ser consolados. Exigem milagres e feitos extraordinários mas de momento não os merecem talvez porque a fé vacile, talvez porque o rancor e o sentimento de vingança os consomem. A vida envolve conquista, renúncia e sofrimento. E se ela é significativa, tudo o que ela envolve também o é. Portanto, o sofrimento faz parte do cardápio humano como elemento essencial. O importante é a atitude que se toma diante dele. O escapista foge do sofrimento transferindo para outros sua dor e miséria agredindo, furtando e matando seu semelhante. O masoquista busca o sofrimento desnecessário e leva-o através de suas lamentações aos que os rodeiam. Os inertes se entregam ao sofrimento – real ou fictício – fazendo tempestades em copo d'água, reclamando de tudo e de todos, vez por outra afirmando (da boca para fora, apenas) que desejam morrer. Nenhum deles descobriu o significado da vida. Um dia descobrirão que a tolerância, a paciência, a humildade, a solidariedade, o perdão, a misericórdia a dignidade são os alicerces da paz e que esta é o esteio da vida; saberão, também, que a vida é o próprio ser humano e todos os demais que o mantém ou lhe propiciam sobrevivência. Daí, e só então descobrirão que ajudá-los ou permitir-lhes sobrevivência é apossar-se do verdadeiro significado da vida, é ilustrar as palavras de Jesus: "vós sois deuses". Como bem disse um pensador: "Aquele que planta uma árvore certo de que não desfrutará de suas flores, de seus frutos ou de sua sombra descobriu o verdadeiro significado da vida". Sim está plantando bem-estar para alguém. Não importa se lhe creditem ou não méritos, importa que alguém irá sentir-se bem com sua ação, com seu desvelo, com seu carinho.
O principio da vida bem escorada percorre três caminhos: o primeiro é cheio de sinuosidades e relevos: é quando se tem que descobrir que rumo pretende dar aos anseios; o segundo é cheio de desvios e atalhos: é quando se tem que lutar pelo objetivo almejado; o terceiro é bem sinalizado e seguro: é quando se decide amar o semelhante. Mas é bom não esquecer que todos eles têm duas mãos: ida e volta.
Os que agem com bondade junto ao semelhante espelham Jesus e representam a Misericórdia de Deus. Os que permitem ou levam o sofrimento ao semelhante são os anunciados e temidos escândalos.
Viktor Emanuel Frankl, distinguiu no homem, sob a ótica cientifica, em três esferas: corporal, anímica e espiritual e resgata a transcendência humana ao afirmar: "ou bem o homem se concebe como imagem de Deus, ou degenera em caricatura de si mesmo".
Autor: Gérson Gomide
Maiores informações podem ser obtidas em:
Frankl, Viktor Emanuel, Fundamentos antropológicos da psicoterapia – Zahar Editores, 1978, Rio de Janeiro.
Frankl, Viktor Emanuel, El hombre en busca de sentido, Editorial Herder – 1982, Barcelona (Espanha).
I. A. de Moraes Xausa, Um psicólogo no campo de concentração, Jornal Zero Hora – 12 de agosto de 19
Publicado em 2002 na Revista Internacional de Espiritismo - RIE


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