sábado, 10 de abril de 2010

O PESCADOR - Autora: Maria Emília Moura


Havia um pescador de uma aldeia que diariamente ia para a beira do rio com a sua vara de pescar e ali ficava pacientemente à espera que um peixe mordesse a linha. Ou melhor, três peixes. Porque era sempre depois de apanhados três peixes que abandonava o local e se dirigia tranqüilamente à pequena casa onde vivia com a mulher e um filho pequeno. Aquele comportamento quase se tornara um ritual e muito se comentava na aldeia. Reinava a estranheza. Um dia, chegou um turista e do seu dia-a-dia começou a fazer parte um passeio à beira do tal rio. Uma, duas, três, muitas vezes, ele ali se deteve a observar o pescador solitário, acabando por puxar conversa com ele.
Você desculpe, mas... há vários dias que conheço o seu estranho hábito. Quer dizer... você pesca exatamente sempre três peixes, e depois vai embora..
O que queria o senhor que eu ficasse a fazer aqui?
Esperasse que outros peixes mordessem o anzol!
Mas eu só preciso de três peixes. Somos três bocas lá em casa.
E nunca pensou em pescar mais peixes?
Para quê?
Para vender e poder comprar redes e um barco.
Para quê?
Para comprar uma casa maior e depois talvez outro barco e pôr pessoal a trabalhar para você.
Mas para quê?
Para ter outras coisas, ser muito rico, fazer aquilo de que gosta...
Aquilo de que gosto? Mas o que eu gosto é de pescar!


Fonte: Diário de Notícias, Lisboa.

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